Análise | Análise Política Vida social, normas e valores

A morte de Eduardo Campos e a sociedade brasileira

A morte inesperada do candidato à Presidência da República Eduardo Campos é objeto de análise da pesquisadora Paula Guimarães Simões. À luz das teorias do acontecimento de Louis Quéré, ela investiga como as narrativas biográficas do político são importantes para a construção de um passado e um futuro a esta ocorrência. São também importantes os poderes de afetação e hermenêutico de tal tragédia, mostrando sua passibilidade e sua capacidade de revelar o contexto brasileiro contemporâneo.

A morte do candidato à presidência da República Eduardo Campos, em 13 de agosto, insere-se em nossa sociedade com toda a força de um acontecimento. Não é possível esgotar aqui todas as dimensões dessa emergência, mas apenas explorar alguns de seus eixos, evidenciando caminhos de reflexão que merecem ser percorridos na tentativa de compreender a morte de uma figura pública como um acontecimento.

Quando a notícia da queda de um avião em Santos emerge na cena pública, a descontinuidade se instaura na experiência cotidiana e, com ela, a busca por se compreender o que de fato aconteceu. Quais as causas do acidente? Quem estava a bordo? Houve sobreviventes? Quantas vítimas? Como compreender algo tão imprevisível? Quando se confirma que o jato envolvido no acidente era utilizado na campanha do candidato do Partido Socialista Brasileiro (PSB), a ruptura é ainda maior.

É claro que uma tragédia como um acidente aéreo afeta e sensibiliza os sujeitos – eis a passibilidade do acontecimento ou o seu poder de afetação, como discute Louis Quéré. Sujeitos que se identificam com a dor dos familiares, com as histórias de vida interrompidas de forma inesperada e trágica, com a realidade implacável da própria morte – “única certeza absoluta no domínio da vida”, como lembra José Carlos Rodrigues. Uma tragédia como essa nos afeta porque nos aproxima de nossa mortalidade – e de nossos entes queridos – em uma tomada de consciência da própria morte, uma marca de nossa humanidade.

Mas quando o acidente envolve uma figura pública de destaque no cenário nacional, a repercussão do acontecimento é muito maior. Afinal, “a efervescência ritual provocada por uma morte varia de acordo com a importância social do defunto”, conforme o mesmo Rodrigues. Os inúmeros discursos construídos acerca da ocorrência retomam a trajetória do morto ilustre, resgatando traços de sua vida pessoal e de sua vida profissional que merecem ser perpetuados na memória coletiva. Se é a situação em que o acontecimento emerge que “cria com sua unicidade um passado e um futuro”, tornando-se “uma história e uma profecia”, como sugere George H. Mead, a morte de uma pessoa pública impulsiona a reconstrução desse passado e projeção de um futuro.

Construindo o passado desse acontecimento, está a imagem de Eduardo Campos como um político sério e competente, uma jovem liderança no país, que seguiu os passos do avô, Miguel Arraes, um dos fundadores do PSB. Eleito governador de Pernambuco por dois mandatos, Eduardo Campos renunciou ao cargo para concorrer nas eleições presidenciais de 2014. Inúmeros políticos (independente da postura ideológica e da filiação partidária), além de celebridades e anônimos se manifestaram nas redes sociais lamentando a morte de Campos.

Além da trajetória política, traços da vida pessoal do ex-governador de Pernambuco foram destacados: ele é posicionado como um bom marido, pai de cinco filhos, sendo que o caçula tem apenas sete meses de vida. De forma hegemônica, os discursos foram bastante generosos com a trajetória e a imagem públicas de Campos – o que costuma acontecer diante desse “acontecimento único e radical” (CARDOSO E CUNHA, 2005) que encerra uma trajetória de vida.

E como refletir sobre a profecia do acontecimento? Qual o campo de possíveis aberto pela morte de Eduardo Campos? Em primeiro lugar, isso deve ser pensado no interior da própria vida em família (do futuro da viúva e de seus cinco filhos, que tiveram tão pouco tempo para conviver com o pai, sobretudo, o caçula); o campo de possibilidades é, assim, marcado pelo luto e pelo respeito à memória daquele ser humano tão importante nessas vidas. Mas há, certamente, outros futuros abertos por esse acontecimento: como ocorrerá o processo eleitoral em curso, quem será o novo candidato do PSB, quais serão os líderes do futuro que serão capazes de preencher a lacuna deixada por Eduardo Campos são algumas das questões que se colocam neste momento.

Esse campo de possíveis ajuda a compor a repercussão do acontecimento, que não afeta a todos da mesma maneira. A morte de Eduardo Campos impulsionou incontáveis manifestações de lamento em torno de uma perda coletiva – o fim da trajetória de um líder político promissor; inúmeros comentários de solidariedade para a família em virtude da perda pessoal – o fim da vida do marido de Renata e do pai de João, Pedro, José, Maria Eduarda e Miguel; diversos discursos lastimam a perda das vidas humanas – além de Campos, quatro assessores da equipe de campanha e dois pilotos morreram no acidente; vários posicionamentos atentam para o sofrimento das pessoas atingidas e feridas pelo avião em Santos.

Mas houve também discursos que se afastaram do luto e do respeito que uma morte trágica como essa evoca, inscrevendo-se no terreno da insensibilidade e do desrespeito. Em pouco tempo, surgiram piadas nas redes sociais que apontavam a presidenta Dilma Rousseff e candidata à reeleição como a causadora do acidente – a ponto de a hashtag #FoiaDilma figurar entre os tópicos mais comentados do Twitter. Surgiram, ainda, manifestações de pessoas desejando que Dilma ou o candidato do PSDB à presidência Aécio Neves estivessem no lugar de Eduardo Campos.

E como podemos pensar sobre o poder hermenêutico desse acontecimento? Ou seja, o que ele pode revelar do contexto brasileiro contemporâneo? A morte de Eduardo Campos inaugura diferentes discursos sobre o processo eleitoral de 2014 (com as rivalidades e lutas políticas acaloradas), sobre o regime de trabalho dos pilotos durante as campanhas dos candidatos, sobre o modo como lidamos com a morte na contemporaneidade. Para muitas pessoas, a morte impulsionou o respeito e a solidariedade diante do sofrimento enfrentado; para outras, ela motivou a insensibilidade, a intolerância e o humor sórdido. Nesse sentido, o acontecimento ilumina e revela aspectos configuradores do quadro de valores de nossa sociedade – e se mostra um lugar privilegiado de análise da própria vida social.

 

Referências citadas:
CARDOSO E CUNHA, T. Acontecimento e biografia. Trajectos, Revista de Comunicação, Cultura e Educação, Lisboa, n. 6, p. 105-108 , 2005.
MEAD, George Herbert. The Present as the Locus of Reality. In: ______. The Philosophy of the Present. LaSalle, Illinois: Open Court, 1932. p. 1-31. Disponível em: http://www.brocku.ca/MeadProject/Mead/pubs2/philpres/Mead_1932_01.html. Acesso em 22 de fevereiro de 2011.
QUÉRÉ, L. Entre o facto e o sentido: a dualidade do acontecimento. Trajectos, Revista de Comunicação, Cultura e Educação, Lisboa, n. 6, p. 59-75, 2005.
RODRIGUES, J. C. Tabu da morte. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.

 

Paula Guimarães Simões
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
P
esquisadora do Gris/UFMG



Comentários

  1. Paula Guimarães Simões disse:

    Obrigada pelos comentários, Ricardo e Gilvan! Vocês apontam aspectos muito importantes que devem ser pensados na análise desse acontecimento. Ricardo chama a atenção para os diferentes públicos que se constroem em relação a ele e aos modos diversos como estes se veem afetados pela tragédia. Certamente, esse indizível que não pode ser captado pela maioria dos discursos midiáticos tem um papel central na constituição do próprio acontecimento – e merece ser investigado em uma análise mais cuidadosa. E Gilvan, muito oportunamente, compara o acidente com outra tragédia que marcou a história brasileira – a morte de Tancredo Neves – e que também acarretou uma comoção nacional. Na tentativa de compreender um acontecimento como esse, procuramos compará-lo a outros (por aproximações e distanciamentos) na tentativa de definir a situação por ele criada, reduzindo sua descontinuidade. Isso mostra, uma vez mais, o modo como os acontecimentos nos afetam e como é importante buscar entendê-los para compreender o mundo em que vivemos.

  2. Ricardo Duarte disse:

    Parabéns pelo texto, Paula, e pela lembrança do ex-governador Eduardo. A mídia está tratando como “Tragédia em Santos” algo que tem proporções muito maiores que uma “simples” tragédia. De fato, trata-se de uma tragédia que envolve as famílias dos anônimos (piloto, co-piloto, assessores, vizinhança do bairro em Santos, etc), mas também de um indizível que existe em torno da morte de um candidato à Presidência, a poucos dias do início do Guia Eleitoral. Queria ressaltar esse indizível. Trabalhei para o avô dele, quando morava em Recife e via como ele era idolatrado pelas pessoas comuns e assessores. Minha família tem alguns laços afetivos com a família (meu avô era político nos anos 60 e muito amigo de Arraes). Lembro de quando da morte de Arraes, minha avó passou mal alguns dias. E este é um aspecto interessante, o indizível na comoção das pessoas simples na cidade em torno destas figuras públicas, a atmosfera triste que tomou Recife. De acordo com informações de meus familiares, em todos os lugares do Recife as pessoas estavam em silêncio, um cotidiano que se encheu de silêncio e tristeza. Fico pensando em quais valores teriam sido convocados a flutuarem por aquele espaço do velório aberto. Também faz parte do acontecimento aquilo que não se pode dizer e que afeta grande público local. E foi isto que mobilizou, tanto no enterro do avô quanto do neto, mais de 100 mil pessoas pelas ruas da cidade. O indizível se junta ao caráter de “desarrumação” do acontecimento (presente emergencial) que provoca uma mudança existencial (no rumo das eleições): as últimas palavras do ex-governador no Jornal Nacional se tornou, agora depois de sua morte, slogan de uma outra campanha, com uma outra candidata. O leme virou e o barco tomou outro rumo… Será? 🙂

  3. Gilvan Araújo disse:

    Ao ler o texto da professora Paula Guimarães fiquei pensando que um dos poderes de afetação de um acontecimento é nos remeter a outros que, por algum motivo, nos apresenta alguma semelhança. Assim, fiquei pensando na morte de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985. Me lembro que naquele ano, milhares de mineiros também foram para a porta do Palácio da Liberdade (assim como agora em Recife)para serem testemunhas daquele acontecimento. Houve muita comoção e até tumulto, dezenas de pessoas foram pisoteadas (acho até que ocorreram mortes por este motivo). O clima de mistério em torno da morte também é outra semelhança. Muito embora, esteja claro que no caso de Eduardo Campos a causa tenha sido um acidente aéreo, se especulam possível sabotagem do avião, assim como um possível envenenamento de Tancredo em 1985. Por último, para não me alongar demais nas comparações, está o fato de como o acontecimento é enquadrado pela mídia. Nos dois casos o que vale é a comoção, as qualidades do morto e a perda e o sofrimento dos familiares e amigos mais próximos. Um percentual bem maior de eleitores do que aquele divulgado pelas pesquisas eleitorais dizia que iria votar em Campos nas próximas eleições. Mas a reboque da tragédia apontada pelo acontecimento, assim como no caso de Sarney em relação a Tancredo, se alguém não tem motivos para chorar a morte do candidato do PSB é a sua vice (agora candidata), cujas pesquisas eleitorais apontam para um crescimento espantoso de intenções de votos antes mesmo logo depois do morto ter sido enterrado, garantindo a máxima que diz: “rei morto, rei posto”.

Comente

Você dever estar logado para deixar um comentário. Caso não tenha um login, cadastre-se em nosso site.