Análise | Política

A novela de um (des)governo

No ar há alguns meses, essa novela consegue arrancar suspiros de vários públicos, conta com uma audiência monstruosa e não sai das telas do Brasil: está literalmente na boca do povo. O país se dividiu em grupos devido a trama. A história sem mocinhos e recheada de vilões tem bastante reviravoltas, é realmente emocionante para todos do país. Ah, quem nos dera se fosse só um drama do horário nobre.

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Os mais reconhecidos roteiristas das novelas da Rede Globo não poderiam imaginar história mais dramática do que a enrascada em que o Brasil vem se metendo. E ela agora atende por um nome: Michel Temer. O presidente interino cortou de forma aleatória e demagógica ministérios, como demonstra o caso do “vai e volta” do MinC e a aprovação do oneroso aumento do autofuncionalismo federal. Desmentiu, demitiu e recebeu demissões de seus ministros. E foi citado em delações que, se comprovadas, enterrariam a carreira de qualquer político e seriam motivos suficientes para prisão.

Enquanto isso, segue o rito do impeachment de Dilma Rousseff. Um capítulo importante foi a perícia técnica do Senado, que inocentou Dilma das pedaladas, mas a responsabilizou pela assinatura dos decretos. Usadas pelo chamado “centrão” contra a presidenta afastada, as “pedaladas fiscais” também foram descaracterizadas como crime pelo Ministério Público. Dilma, que está aguardando o julgamento dos senadores, aproveitou para viajar pelo país, contando com apoio de uma “vaquinha” virtual – já que o (des)governo de seu ex-aliado a proibiu de utilizar verba pública para suas viagens. O financiamento coletivo digital bateu a meta e em dois dias arrecadou 500 mil reais para financiar seu transporte.

Há vários núcleos nessa novela, incluindo outros personagens da trama política do país. Um deles virou assunto nas redes sociais quando pressionado em entrevista para a Al Jazeera. FHC, talvez acostumado ao padrão “podemos tirar, se achar melhor”, teve que se virar para justificar o injustificável.  O entrevistador perguntou: se Dilma foi afastada “pelas ruas”, como alegado, porque o PSDB faz parte de um governo que grande parte da população quer afastar, como demonstram pesquisas?

Falando em pesquisas, parece que parte da mídia brasileira gosta de atuar no núcleo (tragi)cômico. A divulgação do resultado enviesado por uma pergunta jogou por terra a credibilidade de pesquisa Datafolha, mesma que dizia que um terço do país não sabe o nome do atual presidente da República (portanto, não estaria prestando muita atenção na novela).

Na trama sem heróis, Temer tende a ser o principal vilão, embora a disputa seja bem acirrada. Deputado afastado pelo STF, Eduardo Cunha renunciou à presidência da Câmara, em mais uma de suas manobras para continuar no mandato, e foi substituído por Rodrigo Maia, do Democratas. Cunha é um coadjuvante que rouba a cena, voando nos aviões da FAB.

Temer traiu Dilma ao articular uma “eleição indireta” e  parece trair o mercado que o via como uma boa possibilidade. Fará de tudo para ficar no cargo. O acontecimento revela uma sociedade cansada, uma cultura política frágil, atores políticos ilegítimos e uma normalização perigosa – ainda que haja resistência. Há diferentes afetações: alguns gritando, outros tantos sussurrando “fora Temer”. Aliás, o Datafolha pode tentar esconder, mas é o que quer a maioria. Esta novela, se depender do nosso desejo, termina antes de 2018.

 

Gáudio Bassoli
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – UFMG
Pesquisador do Gris

 

Paulo Basílio
Graduando em Comunicação Social pela Puc-Minas
Bolsista de Iniciação Científica do Gris/UFMG

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de julho, definido em reunião do GrisLab.


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