Análise | Política

A quase ministra Cristiane e o Brasil

A nomeação de Cristiane Brasil não se concretizou e mesmo assim revelou o país contraditório em que vivemos. Ora acossados pelo compadrio, ingerência e corrupção de políticos, ora espectadores de um judiciário inflamado pela grande mídia cada vez mais extrapolando suas funções, até nosso legítimo desejo por justiça toma ares cínicos.

O Senador Aécio Neves, a deputada Cristiane Brasil e seu pai, Roberto Jefferson. Foto: Felipe Menezes.

Temer finalmente voltou atrás da nomeação de Cristiane Brasil (ficou no ministério o interino que responde por “gato” de luz). Mas a pequena novela da quase ministra revela um país contraditório e uma trama constrangedora, à altura de nossas maiores desilusões.

Cristiane é uma das poucas deputadas do gênero feminino, mas não foge ao padrão de seguir os passos do pai na política partidária. O dela, Roberto Jefferson, tem uma má reputação que o precede desde os tempos do célebre mensalão. Jefferson é presidente do PTB, partido dele e da filha, e foi ele quem indicou Cristiane.

Ironia pouca é bobagem: indicada para a o ministério do trabalho, integrante do partido trabalhista brasileiro, Cristiane sofreu dois processos trabalhistas – em um foi condenada e no outro fez acordo. A contradição escancarada faz lembrar casos anteriores, como o do homofóbico Marco Feliciano presidindo a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, entre tantos outros.

A história de Cristiane ganhou temperos de constrangimento tropical com o vídeo gravado no iate, em que a deputada ao lado de homens descamisados defende a própria nomeação. Por mais que ela se diga arrependida, alegando que a gravação foi feita para amigos e vazou, ele funcionou bem como estratégia deliberada de desviar o foco do debate. Lembra-se do senador que, depois de um grampo sugerindo corrupção e até assassinato de testemunha, foi acusado por correligionários do “crime” de falar palavrões em uma conversa privada? É tudo mera distração para as questões que realmente importam.

Talvez a boa discussão em toda essa história é como o judiciário, mais uma vez empurrado pela mídia, interferiu tanto na nomeação da ministra, atribuição da presidência. Não que devamos ignorar as ingerências do executivo e promiscuidades do legislativo, mas as intervenções de advogados, promotores e juízes preocupa no país em que Lula não pode virar ministro para fugir do apressado Moro, mas Moreira Franco pode cair nas graças do sobrecarregado STF. Princípios mais amplos e abstratos do direito, como “moralidade pública”, embasamento para suspender a nomeação de Cristiane, são perigosos se usados de forma indiscriminada, ao sabor da conveniência do interesse mais poderoso da vez.

Sobre a participação de Temer no caso, a nomeação de Cristiane foi defendida pelo Planalto enquanto deu não só pela necessidade desesperada de apoio dos parlamentares, mas porque não há mais nada a perder e esconder: as palavras ficam vazias e são ditas só para constar, quando contrapostas a vídeos, grampos, sentenças condenatórias. Nem mesmo os discursos contrários ao governo escapam de um ar de cinismo: o repetitivo “Fora Temer” se esvaziou no país em que grande maioria espera ou “Lula 2018”, ou “Bolsonaro 2018” ou se convenceu de que “é tudo igual”. Poucos são os que vão defender o mais impopular da história, mas ele permanece no cargo.

Cristiane Brasil alega estar aliviada por voltar à Câmara, mas o Brasil segue trôpego, sem pausa para respirar.

Gáudio Bassoli
Mestre pelo PPGCOM-UFMG e Apoio Técnico do Gris Lab



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