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As encruzilhadas da Rádio Inconfidência

A rádio Inconfidência vive dupla e simultânea encruzilhada, diante do novo governo de Romeu Zema e também das novas condições para o serviço de radiodifusão sonora em ondas médias no país.

Há pouco mais de um mês, a posse do novo secretário estadual de Cultura e Turismo, Marcelo Matte, foi marcada por protestos da classe artística (como aponta texto de O Tempo), preocupada com o anúncio do fim da rádio Inconfidência AM por razões técnicas, ocorrido em meio à demissão do apresentador Múcio Bolívar, do programa Trem Caipira.  Tal acontecimento sobrepõe, na emissora, a confluência de uma dupla e simultânea encruzilhada, na qual a primeira – o início de um novo governo estadual com Romeu Zema – encontra-se com a segunda – o fim dos prazos de migração de emissoras da rádio AM para FM – diante do qual muitas emissoras solicitaram ao governo federal a mudança  (não obrigatória) daquele para este espectro – como diz o Decreto nº 8.139, de 7 de novembro de 2013 .

Todavia, esta mudança das emissoras explica-se, sobretudo, por atrativos mais econômicos que técnicos: as rádios FM atingem público mais restrito em um sinal mais qualificado – nichos de consumo com chances de maior receita publicitária em rádio – além de aptas à convergência digital. O FM está em aparelhos celulares – tipo Android – sem necessidade de conexão ou Wi-fi.

Rádios AM e FM também podem ser acessadas pelo celular através dos sites de cada emissora ou de serviços de streaming on line como o Simple Radio ou Radio Garden. Depende-se dos custos e/ou condições de um aparelho celular (sinal, pacotes, bateria) e, claro, de sites com transmissões on line destas rádios.

E aqui vemos como a encruzilhada da migração AM-FM se encontrou neste momento de encruzilhada governamental de MG com a rádio Inconfidência em meio a ambas. Isso porque se a decisão de migração e extinção da rádio envolver o aspecto técnico, este ponto deve considerar o caráter historicamente público de 82 anos de uma emissora que abriga, por exemplo, um dos programas de rádio mais antigos do mundo, A hora do fazendeiro, que foi ao ar no ano de fundação da Inconfidência e dentro da proposta de serviço ao homem do campo. Por essa e outras razões já estava em tramitação um pedido de tombamento da rádio como patrimônio cultural, aspecto evocado em audiências públicas que vêm sendo realizadas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sobre a extinção da Inconfidência.

Ou seja, emissoras de rádio, especialmente públicas, ainda cumprem importante papel de serviço e cultura nas ondas AM – supostamente inexistente em tempos digitais e num país continental que tem mais celulares que habitantes. Parece incrível, mas ainda há poder de alcance das rádios AM em um Brasil profundo que não dispõe de sinais de celulares e pacotes de streaming – como traz a reportagem País sem sintonia no UOL.

Mesmo em termos de mercado, a permanência de uma rádio AM pública não só garante o cumprimento um papel integrador num país como o Brasil, mas também justifica com mais força a sua presença em um espectro, no qual, precisamente, a concorrência se tornará menor e a audiência, consequentemente, maior.

Nísio Teixeira
Professor do departamento de Comunicação Social da Fafich/UFMG e jornalista.



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