Análise | Política

“Chega de político, é hora de Kalil”.

A frase que intitula esta análise foi o carro chefe da campanha do prefeito eleito de Belo Horizonte nas eleições municipais de 2016, Alexandre Kalil. Tal discurso foi visto também em outros candidatos vitoriosos deste ano, não só no Brasil.

Alexandre Kalil. Fonte: blog.chicomaia.com.br

Alexandre Kalil. Fonte: blog.chicomaia.com.br

A vitória de Alexandre Kalil para a prefeitura de Belo Horizonte não chegou a ser exatamente uma grande surpresa. Afinal, ela se aproxima de diversas outras que adotaram a mesma linha discursiva: um candidato “de fora da política”, um empresário rico e bem sucedido, a ênfase na ação em lugar da retórica de promessas (segundo o prefeito eleito, “o que falta não é promessa e sim fazer funcionar o que já tem”).

Guardadas as diferenças, essa vitória se assemelha à de João Dória Jr. (PSDB), para a prefeitura de São Paulo, e mesmo de Donald Trump, para a presidência dos Estados Unidos da América. A tônica recente – não apenas no Brasil da LavaJato, mas pelo mundo – é afastar-se do perfil do político tradicional, cuja imagem está completamente desgastada, e configurar um lugar distinto.

Não é necessário lembrar que “colocar-se fora da política” numa disputa política é uma falácia, porém é importante compreender que “lugar outro” é este que está sendo delineado. A recusa dos velhos políticos (mesmo se jovens) e a descrença na política tal como vem sendo exercida são evidentes, expressas não apenas pela derrota de candidatos, mas também pelo expressivo volume de abstenções, votos nulos e em branco.

Outros sentidos despontam ainda nessas novas escolhas e preferências do eleitorado. O slogan “Chega de político, é hora de Kalil” evidencia um forte teor personalista. Ex-presidente do Clube Atlético Mineiro, Kalil já era uma pessoa conhecida e polêmica; a associação com o futebol (e com a “massa atleticana”), seu estilo impetuoso, direto e pouco refinado contribuíram para a construção de uma imagem popular (ou de alguém mais perto do povo). Certamente, uma imagem que destoa do político convencional, e provoca identificações.

Sua candidatura por um pequeno e desconhecido partido (PHS), praticamente sem alianças, também reforça a ideia de independência frente à política de compadrios que prevalece. As alianças escusas e eleitoreiras que vêm sendo tecidas no campo político confirmam uma imagem interesseira dos políticos, “todos iguais”, atuando em causa própria e à revelia do povo. Nesse sentido, correndo em raia própria, Kalil pelo menos parecia não “ter o rabo preso” nas mesmas teias, tendo alardeado que colocaria às claras os arranjos que vieram sustentando escolhas e diretrizes da política urbana na capital.

Mas sem dúvida, sua vitória é também devedora da falta de alternativas. O candidato do PSD (situação) recebeu a recusa de um terceiro turno ao atual prefeito, Márcio Lacerda. A candidatura petista, além do desgaste nacional da legenda, trouxe um nome pouco conhecido e sem grande expressão. João Leite, do PSDB, foi para o segundo turno com Kalil, inicialmente como favorito. Fez uma campanha de muitas acusações, e patrocinou sobretudo mais uma derrota de Aécio Neves na capital.

Essa independência e as “ousadias” de Kalil, que podem ter provocado empatia, também despertam muitos temores: para onde ele vai? Com quem vai? Mas houve comemoração popular. Mesmo que não se espere muita coisa, vislumbra-se o desejo de ser surpreendido.

 

Vera França
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Coordenadora do Grispop

Paulo Basílio
Graduando em Comunicação Social pela Puc-Minas
Voluntário de Iniciação Científica do Gris/UFMG

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do GrisLab.



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