Análise | Infância e juventudde

Crianças entre luz e sombras das câmeras

O The Voice Brasil Kids chega ao final sem tocar a fundo no tema do trabalho infantil, que pode estar vitimando alguns de seus agora ex-participantes. As câmeras que jogam luzes nas crianças e adolescentes também lançam sombras sobre uma realidade problemática.

O vencedor da temporada comemora com seus técnicos. Fonte: Globo

O vencedor do The Voice Kids comemora com seus técnicos. Fonte: Globo

O The Voice Brasil Kids teve seu final de temporada no domingo, 27 de março, e muito pode ser dito sobre o acontecimento midiático. A forte carga emocional da mistura entre talento musical e “fofura” infantil; a (des?)politização nos comentários em torno dos últimos acontecimentos do país; a vitória de Wagner Barreto, talentoso adolescente sertanejo de Porto Rico, Paraná, que morou numa região sem energia elétrica, como relembrado pela narrativa do The Voice. Na análise que se segue, olhamos um tema para além do que foi mostrado: o trabalho infantil, ainda não encarado tão a sério quanto deveria no país em que se escuta “é melhor estar trabalhando do que roubando”.

Ao leitor e à leitora com mais pressa, que podem estar querendo de imediato protestar contra o texto, avisamos que é arriscado taxar um concurso de talentos como um problema tão grave. Não é essa nossa proposta: o The Voice Kids provavelmente deu muito trabalho para seus participantes mirins, mas não pode ser tipificado como crime. O que nos chama a atenção são as carreiras precoces de muitas daquelas crianças (com detalhes brevemente narrados durante a temporada), se apresentando na noite (às vezes com os pais), ensaiado várias horas por dia, também atuando… Qual é o limite entre o que acrescenta e o que compromete o desenvolvimento, os estudos, o futuro delas?

As falas dos treinadores (Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Victor e Leo), muitas vezes maçantes repetições de clichês, tocaram em uma infinidade de assuntos; inclusive acertando em cheio ao criticar os pais que, tendo sonhos especialmente de fama, “empurram” os filhos para realizarem-nos, ignorando aptidões e desejos próprios das crianças. Mas a questão do trabalho infantil não teve tanto espaço, claro, pela inconveniência do tema no contexto; contudo, também, porque certos ofícios (cantar, atuar, jogar futebol) não são socialmente vistos como “trabalhos”, quanto mais quando realizados por menores de idade. Há pouca problematização nesse terreno, tanto que a imagem que vem em mente quando se pensa no tema remete a tarefas como serviços domésticos, trabalhar no corte de cana e em carvoarias, muito por conta do imaginário criado pela narrativa midiática em torno do tema.

É certo que setores de pouco prestígio estão mais propensos a entrar na mira da mídia e do restante da sociedade (da qual ela faz parte) quando nossas crianças são flagradas trabalhando neles. Mas a visibilidade, valorizada nos tempos atuais, não deve, paradoxalmente, jogar sombra em algo problemático. O “fofurômetro” do The Voice Kids, aplicativo em que se media a “fofura” da apresentação, joga luz sobre o talento e a potencialidade infantil, mas também sombreia a realidade que explora e massacra as possibilidades dessas potências se desenvolverem. Há muitas sombras sobre o nosso futuro, e está em tempo de jogarmos alguma luz, afinal, a geração que desejamos ver “redimir nossos erros”, como foi dito várias vezes no The Voice, ainda está sob nossa responsabilidade.

 

Gáudio Bassoli
Mestrando do PPGCOM-UFMG
Jornalista e membro do Gris

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de março, definido em reunião do GrisLab. O tema trabalho infantil na mídia foi sugerido pela leitora Adriana Resende Ugoline.



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