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#debate ou #combate?

Eleições 2014 e intolerância nas redes sociais da web


De modo geral, os períodos de eleições presidenciais são marcados por intensas movimentações na cena pública de um país. Isto não foi diferente para as eleições de 2014 no Brasil, especialmente no segundo turno. A disputa acirrada entre presidenciáveis chamou a atenção por se reverberar intensamente no espaço das redes sociais da web. Diante das discussões acaloradas sobre a pauta política, subjetividades são expostas, valores são reconfigurados via o debate ou pela tentativa de estabelecê-lo.

 

Embates de opinião sobre política, esporte, religião são comuns. Se já existiam tais conversas a respeito disso nas várias instâncias do cotidiano, inclusive fora do ciberespaço, com a surgimento das redes sociais digitais, isto se amplificou. Especialmente durante o segundo turno das últimas eleições para presidente. O clima de “tudo ou nada” desta fase acentuou uma fervorosa disputa de atenção nas timelines do Facebook. Isto porque muitos usuários optaram por utilizar os próprios perfis on-line para defender o candidato de sua preferência, angariar a atenção de amigos, familiares, colegas de trabalho, seguidores em geral e até para quem sabe modificar a escolha de voto dos indecisos.

Entre 6 de julho e 26 de outubro, período de campanha eleitoral, somente o Facebook contabilizou, entre seus usuários, um total de 674,4 milhões de postagens, curtidas, comentários e compartilhamentos sobre as eleições de 2014. O Twitter registrou 39,85 milhões de mensagens postadas durante o mesmo período. O uso de hashtags também foi expressivo nos conteúdos produzidos. Somente no último debate televisivo do segundo turno, realizado no dia 24 de Outubro pela Rede Globo, foram gerados mais de dois milhões de mensagens, utilizando a hashtag #debateNaGlobo.

Jornais impressos como “Estado de Minas”, “O Globo”, “O Dia”, Folha de São Paulo divulgaram matérias sobre as desavenças e o embate radical de opiniões entre os internautas. Atos de bloquear, excluir contatos, denunciar perfis conhecidos devido às divergências de opinião foram recorrentes. Ao replicar suas opiniões, os eleitores instigavam a manifestação de outros eleitores, em um ciclo que deu visibilidade ao comportamento de intolerância nas redes sociais da web. O papo descontraído realmente deu lugar à troca de ofensas, como observam alguns entrevistados pelos jornais:

“(…) — Na chamada “guerra em rede”, os diversos grupos disputam a primazia pela narrativa de um acontecimento. E é bom lembrar que estamos falando de um meio quente, que acirra a discussão. Tem uma expressão que resume isso, diz que, ali, todo mundo pode dar os seus “20 centavos de palpite.” Henrique Antoun, professor da Escola de Comunicação da UFRJ

O fato é que, apesar da diversidade de fontes de informação disponível na internet, muitos comentários e postagens são produzidos sem prévia conferência dos fatos ou mesmo breve reflexão. Mediante os desdobramentos da discussão, a raiva surge e evidencia a dificuldade dos agentes do debate de se escutarem antes de se atacarem. Isto porque se os lugares de “fala” se diversificam, lugares de “escuta” também.

“(…) — Ninguém mais “ouve” ninguém, e alguns vociferam. Esse tipo de debate (que mais lembra a palavra combate) é aquele em que os lados já entram em campo com opiniões formadas e irredutíveis, sem disposição para prestar atenção a qualquer argumento do “opositor. As pessoas não querem ouvir, apenas convencer as outras.” Renato Terra, diretor do longa “Fla x Flu” em cartaz no Rio de Janeiro desde o dia 25 de Outubro.

Ataques pautados no racismo, homofobia e até pejorativos entre moradores de diferentes regiões do Brasil foram recorrentes, como aconteceu com os nordestinos. O Estado do Nordeste e seus moradores foram alvos de críticas e repúdio na web, por representarem os 72% dos votos válidos que garantiram a reeleição da presidente Dilma Rousseff. A situação chamou a atenção do Ministério da Justiça. Em sua página oficial no Facebook, foi criada uma campanha para que as pessoas diferenciassem entre discurso de ódio e liberdade de expressão. O discurso de ódio seria uma “manifestação preconceituosa contra minorias étnicas, sociais, religiosas e culturais”. A postagem desta campanha recebeu quase 97 mil curtidas e gerou algo em torno de 219.415 mil compartilhamentos. Alguns comentários relacionados expressam o tom agressivo das mensagens trocadas entre os internautas:

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Desacordos, desencontros ou encontros de ideias fazem parte da vida cotidiana. No caso do último turno das eleições de 2014, as redes sociais digitais atribuíram visibilidade às práticas de elaboração de conteúdo e conversação de pessoas comuns, em um universo compartilhado com profissionais envolvidos com o marketing político das campanhas, celebridades e até mesmo com os candidatos à presidência do país. Isto nos traz elementos para pensar sobre os usos e apropriações da web por seus usuários, bem como indica a respeito dos “enlaces entre imaginário social, regras, rituais institucionais, modos de interação e de pactuação que viabilizam conversações coletivas e práticas colaborativas na dimensão das redes”, nas palavras do professor Delfim Afonso Jr (2012). Diante da exposição de subjetividades, valores são reconfigurados e confrontados via debate pela tentativa de estabelecê-lo.

Considerando as eleições como um acontecimento de proporções grandiosas, observamos que ele reverbera e se constitui nas redes sociais da web. Além de demonstrar sobre a complexa negociação de sentidos intrínseca aos processos comunicativos da vida comum.

O período do segundo turno eleitoral foi um momento rico de observação da sociedade por evidenciar o desrespeito e a intolerância presente no pensamento e comportamento das pessoas. Mesmo diante das divergências naturais em qualquer núcleo de convivência ou espaço de conversações, permanecerá o convite provocativo ao debate político. São ocasiões oportunas para a percepção de que o racismo, homofobia, preconceito com os pobres e nordestinos ainda se perpetua.

A despeito do clima tenso nas redes, as disposições humorísticas também apareceram e apaziguaram os ataques agressivos em nome da pauta eleitoral: memes e ironias com os termos que identificavam os simpatizantes de partidos, como coxinha ou burguês, foram criados. Até a criação de um candidato imaginário para eleitores indecisos ou adeptos do voto nulo: Dilmécio – a mistura “perfeita” entre Dilma e Aécio.

Após a reeleição de Dilma o blog “Coxinha ama S2 Petralha”, também brincou com o fim das eleições, propondo uma trégua entre os brigões: “mande uma mensagem fofa para fazer as pazes com aquele amigo que você perdeu durante as eleições. Mande sua sugestão para coxinhas2petralha@gmail.com”.

Ainda está em tempo de contribuir!

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Referências:

BABO-LANÇA, Isabel. Reprodutibilidade do acontecimento na ordem institucional. In: Mídia, instituições e valores / Vera Regina Veiga França, Laura Guimarães Corrêa (Org.), Belo Horizonte:Autêntica Editora, 2012, p. 13-28.

JR, Delfim Afonso. Dispositivos de comunicação, apropriações em rede e controle social. In: Mídia, instituições e valores / Vera Regina Veiga França, Laura Guimarães Corrêa (Org.), Belo Horizonte:Autêntica Editora, 2012, p. 13-28.

Polyana Inácio Rezende Silva
Mestre em Comunicação Social pela Puc Minas
Bolsista de Apoio Técnico do GRIS/UFMG



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