Análise | Política

Desafios para a paz: o “não” do plebiscito e a política interna na Colômbia

Como explicar que um país, após 52 anos de uma guerra irregular entre o Estado e um grupo subversivo, possa rejeitar um tratado de paz que pretendia botar ponto final às hostilidades? No último dia 2 de outubro e por uma ínfima diferença de 0,2 %, os colombianos votaram contra o acordo de paz assinado entre o Governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). É este um país sadomasoquista que ama a guerra ou um país de seres irracionais? Nem uma coisa nem outra. É a política.

Fonte: El País - Edição Brasil. 27/09/2016

Fonte: El País – Edição Brasil. 27/09/2016

Precisamos olhar de perto a conjuntura colombiana para encontrarmos algumas explicações para este fato insólito. Em primeiro lugar, o acordo de paz chegou em um momento de baixíssima popularidade interna do presidente Juan Manuel Santos. A queda do boom das commodities minerais, a pouca criação de empregos, somados à percepção de que tinha feito demasiadas concessões às FARC, tornaram o plebiscito uma cobrança política à sua gestão. Santos recebeu, vários dias depois de sua derrota política, o prêmio Nobel da Paz como um consolo dado pelo governo da Noruega, avalista dos acordos, mas também como uma nova pipa de oxigênio político para avançar na empreitada da Paz. Definitivamente, ninguém é profeta em sua própria terra.

Santos delegou a seus aliados regionais, os caciques políticos, a campanha pelo “Sí”. Porém, houve pouca mobilização de suas regiões eleitorais, dado que não havia muitos incentivos financeiros nem postos de representação em jogo. A região do Caribe, grande base eleitoral e reserva de votos esperada por Santos, votou aquém das expectativas. Num país onde o voto não é obrigatório e a abstenção é de 60% em média, até um fenômeno atmosférico, como a passagem da cauda de um furacão pelo Caribe, inibiu os cidadãos de saírem para votar. O governo errou na estratégia para caçar os votos de opinião, mas também falhou nas formas de comunicação. Não soube explicar o conteúdo dos acordos.

Já a direita opositora ao acordo com as FARC foi muito bem sucedida em sua campanha de desprestigio do presidente e em sua mensagem de medo. Duas ideias simples foram suficientes: com as FARC transformadas em partido político a Colômbia seria tomada pelo Chavismo, os chefes guerrilheiros seriam premiados fazendo política sem terem pago pelos seus crimes. Para os setores da direita, o Estado não pode reconhecer beligerância a um grupo que consideram terrorista e não pode instituir formas de justiça transicional que quebrem a ordem jurídica vigente. Para o ex-presidente Álvaro Uribe e seus seguidores, o único aceitável é um tratado mais próximo de uma rendição incondicional dos guerrilheiros.

Diante deste limbo político, Santos abriu canais de discussão com os diversos setores políticos que votaram “No” visando reformar o conteúdo do acordo e submetê-lo novamente à mesa de diálogos instalada em La Habana. O governo e as FARC mantêm a sua palavra de continuar com o cessar bilateral do fogo. Os jovens universitários têm se mobilizado em massivas passeatas exigindo um acordo definitivo. Tudo indica que Santos fará uso de sua prerrogativa constitucional para implementar um novo acordo através do Congresso Nacional onde conta com ampla maioria. E já falou que novembro é a data limite para evitar que a Colômbia transite novamente pelo caminho da guerra.

 

Silvio Salej
Professor do Departamento de Sociologia da UFMG.

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do GrisLab.



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