Análise | Poder Política

Desesquerdização?

Controvérsias de um evento “vira-casaca” no Facebook

Milhares de pessoas “confirmadas” para o evento não escolheram estar ali: uma “pegadinha”, nas palavras do próprio MBL, que organiza a manifestação do dia 16. O evento que, reformulado, chama o PT de “quadrilha”, traz um aviso sobre o fato de o espaço virtual ter sido “desesquerdizado” e foi feito por um estudante que teria se “convertido” à direita, fazendo emergir sentidos e questionamentos quanto à autonomia e liberdade dos usuários na internet.

Printscreen do evento “desesquerdizado”. Crédito: Facebook/Reprodução

Printscreen do evento “desesquerdizado”. Crédito: Facebook/Reprodução

No dia 06 de agosto, começou a repercutir no Facebook um evento para um ato contra o PT (Partido dos Trabalhadores) e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, chamado “16 de Agosto eu Vou pra Rua #ForaPT”. Nada de novo até aí, afinal esses eventos têm eclodido com frequência nos últimos meses. A novidade é que milhares de pessoas “confirmadas” para o evento não escolheram estar ali: uma “pegadinha”, nas palavras do próprio MBL (Movimento Brasil Livre), que organiza a manifestação. Imagine a surpresa, ao receber dezenas de mensagens de amigos, alertando que eu (e muitos amigos que se posicionam à esquerda) era uma das presenças confirmadas: eu nunca havia ouvido falar do evento, e seria muita imaginação pensar que um cracker teria se dado ao trabalho de invadir perfis em função de um protesto estranho.

Logo apareceram algumas explicações, multiplicando-se em vários portais de notícias, blogs e no próprio Facebook: um evento anterior, organizado por pessoas de esquerda nas eleições de 2014, contra Aécio Neves, teria tido uma audiência enorme e teria sido feita uma oferta de “compra” de seu espaço no Facebook por alguém que pretenderia divulgar um protesto do dia 16/08/2015. Outra suposição foi a de que o criador do primeiro evento tenha mudado de ideia e de lado, aproveitando-se de um evento com repercussão e bandeando as confirmações do evento anterior para divulgar o de 2015, com seu novo posicionamento, à revelia dos perfis que faziam parte do espaço. O evento que, reformulado, chama o PT de “quadrilha”, traz um aviso sobre o fato de o espaço virtual ter sido “desesquerdizado”; foi feito por um estudante que teria se “convertido” à direita e tem seis administradores: são jovens de classe média que moram em São Paulo, com posicionamento político-religioso conservador.

O apelo ao voto em coligações conservadoras, a “invasão” (ainda que autorizada) de um evento esquerdista e outras manifestações, como a coreografia coletiva anti-PT, têm repercutido na tentativa de visibilizar e criar expectativas em torno de um acontecimento previsto para o próximo fim de semana (16/08). A manifestação ainda não aconteceu, mas já é caracterizada como “mega manifestação”, a partir de um lugar de fala muito bem definido: o de quem está pagando e quer lucro/retorno imediato (vide a frase “Não vamos pagar a conta do PT”). Os atos pré-manifestação desencadeiam uma rede de acontecimentos que impacta e gera interesses específicos, gerando noticiabilidade (FRANÇA, 2012).

Mais do que isso, essas estratégias de visibilidade midiática fazem emergir sentidos e questionamentos quanto à autonomia e liberdade dos usuários na internet, sobretudo no Facebook. Sabe-se que há mediações e interferências da plataforma nas apropriações dos internautas, mas será que todos têm consciência da possibilidade de utilização “não autorizada” (apesar dos termos de adesão) de perfis e informações particulares, levando a situações que podem gerar desconforto e constrangimento?! Há hierarquias sobre as quais não temos controle e que podem nos afetar (sobretudo nossa imagem) muito além do que ocorreu com a “fraude” do evento. Estamos cientes desse processo de autoexposição que não podemos gerenciar? A resposta nos leva a inúmeros outros questionamentos, ultrapassando qualquer desesquerdização que possa acometer alguém da noite para o dia.

¹Denominação dada a quem quebra (ou realiza cracking) de um sistema de segurança ilegalmente.

Referência:
FRANÇA, V. O acontecimento e a mídia. Galaxia , São Paulo, n. 24, p. 10-21, dez. 2012.

 

Tamires Coêlho

Doutoranda do PPGCOM-UFMG

Pesquisadora do Gris



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