Análise | Poder e Política

Doria: tudo o que toca vira marketing

Proibição da repetição da merenda e “ovada” em Salvador: acontecimentos revelam como o prefeito João Doria, apesar de um conjunto de medidas impopulares, tem buscado se projetar no cenário nacional através da figura do bom gestor.

Imagem: reprodução facebook Doria.

No mês de agosto, denúncias de que as crianças das escolas municipais de São Paulo não poderiam repetir a merenda escolar viraram notícia e dividiram opiniões. Enquanto os pais e professores se manifestavam contra a medida, alegando o corte de gastos na educação, o governo Doria afirmou que a proibição se refere apenas à repetição de alimentos industrializados e é uma medida para evitar o aumento da obesidade infantil. Em algumas escolas, porém, a restrição seria aplicada para qualquer alimento, sendo a marcação da mão das crianças com caneta, uma das formas de controle do acesso à merenda em uma das escolas denunciadas.

A impopularidade da ação do governo Doria entre pais e professores das escolas municipais parece, no entanto, não afetar sua popularidade entre políticos e empresários pelo país. Só em agosto foram 11 viagens pelo Brasil, em que o prefeito de São Paulo recebeu homenagens e títulos de cidadão honorário. Apesar de negar que está em campanha presidencial, Doria tem afinado o discurso como mais um dos inimigos e “bons combatentes” do governo do PT. A presença do prefeito, porém, não é unanimidade e tem despertado protestos, sendo o mais marcante deles o de Salvador, onde junto com ACM Neto, foi alvo de uma chuva de ovos, que resultou, dias depois, em uma ação de marketing de Doria. Ao receber da Granja Mantiqueira a doação de 10 mil ovos, Doria distribuiu 5.500 omeletes a moradores em situação de rua em São Paulo.

Mesmo com um histórico de medidas impopulares em sua gestão, vemos como estes dois acontecimentos revelam o forte marketing pessoal por trás da figura do prefeito de São Paulo, que tem driblado as críticas e investido na representação do bom gestor, concretizada na auto titulação “João trabalhador”.

Na proibição da repetição da merenda escolar, por exemplo, por mais que a decisão do governo Doria revele a facilidade do poder público de escolher o caminho mais curto e mais barato para os cofres públicos, mesmo que prejudicial à população mais pobre, a justificativa que foi aceita e repetida por muitos dos seus apoiadores é de que a preocupação do governo seria com o combate à obesidade infantil, o que é no mínimo contraditório, já que o governo não substituiu os produtos industrializados, apenas proibiu que fossem repetidos pelas crianças. Caso a obesidade infantil fosse de fato um problema nas escolas, não seria mais adequado modificar a alimentação das crianças e investir na merenda e na compra de alimentos mais saudáveis, ao invés de restringir seu acesso? Do mesmo modo, o acontecimento em Salvador, que a princípio poderia ser visto como uma humilhação pública e um indicativo de rejeição, é reapropriado pelo prefeito não só como um motivador para continuar sua “luta pelo Brasil”, como também promotor de uma atitude “generosa” com os moradores em situação de rua de São Paulo – os mesmos que, meses antes, foram tratados com total descaso pelo mesmo governo.

Fabíola Souza
Doutoranda do PPGCOM-UFMG



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