Análise | Desastre socioambiental

Dossiê Mariana: Mobilização – Redes de afeto em torno do acontecimento

A destruição de dois distritos de Mariana, ocasionada pelo rompimento de uma barragem da Samarco, agenciou a população do município de Mariana, que participou ativamente das redes de solidariedade aos desabrigados. O que se verificou, tão logo os desabrigados foram direcionados para a cidade, foi uma política de cuidados bastante expressiva, o que reverberou em uma postura de reconhecimento e de compreensão do outro.

Missa Campal - 11 de novembro

Missa Campal – 11 de novembro

– Vamos Seu Totó, a lama está vindo!
– Que nada, ela não vai passar aqui não. Vou me trancar aqui e esperar!

E assim, casa, quintal e Seu Totó seguiram lama abaixo. Até hoje o corpo não foi encontrado.

São muitas as histórias de perdas, são muitas as lembranças do dia 5 de novembro, são muitas as desmemórias. Ainda sob o efeito devastador da perda de dois subdistritos de Mariana – Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo – a cidade vivencia uma situação emergencial ao abrigar em seu território duas comunidades desalojadas de seus espaços. Assiste-se a uma disputa de sentidos destravada pelo acontecimento que rompeu com a vida cotidiana desses moradores e também com os residentes na cidade.

Pode-se dizer que esse acontecimento agenciou a população do município de Mariana. De acordo com Queré (2012), os acontecimentos são mudanças existenciais experimentadas em consonância com “as dimensões do afeto, do conhecimento e da prática” (p. 37). Ele ainda completa que, além da instância existencial do acontecimento, ele também é experimentado enquanto configurado no discurso. Dessa forma, a mobilização das pessoas em torno do desastre foi imediata; é possível dizer que esse acontecimento configurou-se em narrativas de solidariedade na região dos Inconfidentes.

O que se verificou, tão logo os desabrigados foram direcionados para Mariana, foi uma política de cuidados bastante expressiva. Ao demarcar a diferença entre cuidado e caridade, Todorov dirá que a caridade dirige-se a todos: “o beneficiário típico da caridade é o mendigo anônimo, estendido na rua…” (p. 97), já o cuidado implica em uma postura política de reconhecimento e de compreensão do outro. Esse movimento aconteceu no momento do acontecimento, quando, por irresponsabilidade da empresa, nenhum sistema de alarme foi acionado; a expressão que vigorou, segundo uma professora da Escola que, junto com os demais colegas, organizou a saída dos alunos da pequena escola de Bento Rodrigues, é sintomática dessa política de afetos: “Alteramos a expressão ‘Salve-se quem puder!’ para ’salve quem puder!’”. São os sujeitos se reconhecendo como seres históricos.

Essa perspectiva também foi assumida por muitos moradores da cidade que se dirigiram ao Centro de Convenções com o objetivo de auxiliar os desabrigados em momento tão doloroso. Foi o que se verificou ainda nas ações de professores, alunos e técnicos da Universidade Federal de Ouro Preto que, inclusive, criaram o “Comitê de articulação para a ação voluntária da UFOP de apoio aos atingidos”, com ações no campo da saúde mental (atuação sobre a situação de trauma vivido pelos sobreviventes), sobre a memória, educação, comunicação e o mundo do trabalho. A atuação do Movimento dos Atingidos pelas Barragens, apoiado pela Arquidiocese, também tem agido a fim de organizar e criar redes de relações entre as 600 pessoas desabrigadas. Inclusive, um dos momentos mais potentes ocorridos após o desastre foi a realização de uma missa campal no centro de Mariana. Em seu discurso, o arcebispo D. Geraldo reforçou a importância da união dos desabrigados, já que nesse tipo de situação há sempre inúmeras tentativas de acordos isolados. Nesse evento, houve grande presença de desabrigados, visibilizados pelo pedido de D. Geraldo para que levantassem as velas.

Como nos diz Hannah Arendt, ao ponderar sobre a importância da ação política na esfera pública, “é preciso coragem até mesmo para deixar a segurança protetora de nossas quatro paredes e adentrar o âmbito político, não devido aos perigos específicos que possam estar à nossa espreita, mas por termos chegado a um domínio onde a preocupação para com a vida perdeu sua validade. A coragem é indispensável porque, em política, não a vida, mas sim o mundo está em jogo” (2005, p. 203). Vale ainda ressaltar que muitos moradores estão extremamente abalados com essa situação de insegurança. Não há qualquer trabalho preventivo, qualquer tipo de esclarecimento sobre a possibilidade de rompimento de outra barragem (bem maior). Há ainda aqueles que defendem a empresa acima de qualquer questão. Pode-se dizer que a disputa de sentidos ainda está acontecendo, ou seja, o acontecimento ainda está na ordem do imprevisível. São as ações que poderão ou não dar respostas mais coletivas ao ocorrido, afinal, como nos diz Susan Sontag: “É a passividade que embota o sentimento”.

Referências:
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
QUERÉ, Louis. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista. In.: FRANÇA, Vera Regina Veiga; OLIVEIRA, Luciana de. (Orgs.). Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p. 21-38.
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
TODOROV, Tzvetan. Em face do extremo. Campinas, SP: Papirus, 1995.

 

Marta Maia
Professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto
Pesquisadora do GRIS/UFMG

 

Confira as outras análises do “Dossiê Mariana”:

Acontecimento, enquadramentos e responsabilidades (Terezinha Silva)

Omissos, oportunistas e “funcionários do mês” (Gáudio Bassoli)

Rio Doce – Muito além de Bento Rodrigues (Raquel Dornelas)

O alto preço da fatura (Vera França)

 

Esta análise compõe o “Dossiê Mariana” e faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do Grislab.



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