Análise | Desastre socioambiental

Dossiê Mariana: O alto preço da fatura

A análise busca situar a tragédia do rompimento das barragens da Samarco, em Mariana, e suas consequências dentro do quadro de valores hegemônicos da sociedade contemporânea. Cada um dos eventos que precederam ao acontecimento, assim como os que o sucederam, são aqui observados como frutos de escolhas feitas entre valores – e valores do mundo capitalista. Ao final, são colocadas algumas questões que nos convocam à reflexão sobre tal cenário.

Fonte: tes.com

Fonte: tes.com

Nossa ação no mundo é orientada por valores. Aquilo que escolhemos fazer, a maneira como conduzimos nosso comportamento é resultado de um processo de valoração; fazemos aquilo que achamos melhor, aquilo que corresponde aos nossos critérios de importância. Isto acontece tanto do ponto de vista individual como da perspectiva de uma sociedade; agimos e tomamos decisões enquanto sujeitos individuais, supostamente autônomos. Porém, fazemos isto dentro dos marcos e parâmetros estabelecidos pela sociedade onde vivemos. Assim, uma sociedade se move de maneira “concertada”, orientada por seu quadro de valores.

Ora, sabemos bem que esse quadro de valores não é homogêneo; múltiplos valores circulam e se fazem valer num ambiente social, e nem sempre eles são harmônicos. Em alguns momentos, inclusive, eles se mostram contraditórios, e coexistem sob a forma de tensão e conflito. Também os diferentes grupos numa sociedade não adotam o mesmo conjunto de valores, ou a mesma combinação.

A disputa entre valores, no entanto, não acontece de forma equilibrada, pois eles não têm o mesmo peso. Eles estão hierarquicamente organizados, e alguns, situados em níveis inferiores, atuam apenas e na medida em que não contradizem valores hegemônicos, ou dominantes.

A atividade de mineração nos traz um exemplo disto. A exploração mineral é fortemente destrutiva. Ela perfura e corrói a crosta terrestre, se utiliza de elementos químicos que produzem alto grau de poluição (das águas, da atmosfera), comprometendo a flora, a fauna e a própria saúde da população. Em muitos casos, a atividade mineradora expulsa populações locais e destrói suas condições de vida (como no caso de populações indígenas). Ela se opõe frontalmente, então, com valores caros atualmente, relacionados aos direitos humanos e à preservação do meio ambiente.

No entanto, a mineração é também fonte geradora de riquezas e de possibilidades. Primeiramente, ela enriquece alguns grupos, gera empregos para outros, aumenta a arrecadação de impostos. E não é só isto: os minerais extraídos da terra constituem a matéria-prima de grande parte daquilo que constitui o mundo “humano” contemporâneo. Não teríamos as construções que habitamos, não teríamos os equipamentos dos quais nos tornamos cada vez mais dependentes sem os minérios extraídos da terra. Podemos pensar um mundo sem grandes edifícios? Um mundo sem carros? Um mundo sem computador e sem celular?! Vemos, então, um conjunto de valores que suplanta outros.

Passemos especificamente para o caso de Mariana e da Samarco. Um dos inúmeros problemas da atividade mineradora é a geração de detritos, e detritos tóxicos em quantidades enormes. A acumulação desses detritos pode ser feita utilizando filtros para garantir a drenagem. Os custos podem encarecer a exploração de uma jazida em até seis vezes. Não foi esta a opção da Samarco.

Certamente, não foi por falta de condições. Ela é a terceira mineradora de minério de ferro no Brasil, e seu controle acionário é dividido igualmente por duas gigantes internacionais – a Companhia Vale e a BHP Billiton. Ora, uma grande empresa só o é, e só continua sendo, se souber fazer render o seu capital. E em vários momentos, opções são tomadas – necessitam ser tomadas – quando o valor imperante é manter a margem de lucros.

Assim, escolher o tratamento líquido dos detritos era, para a Samarco, a solução de menor custo, buscando otimizar recursos e inclusive fazer frente à concorrência da China no mercado do aço. É verdade que as barragens estavam atingindo a marca de segurança, mas a aceleração da produção, nos últimos tempos, gerando um depósito maior de detritos em menor tempo (comprometendo o escoamento) foi uma resposta necessária à produção chinesa. Uma boa administração não pode negligenciar a curva de lucros de sua empresa e deve saber defender sua posição no mercado. De novo, valores em conflito: correr riscos ou assegurar o lucro? O jogo estava sendo jogado dentro de suas regras, e predominou o valor mais forte.

Má fé, maldade da diretoria da empresa? Não necessariamente; apenas a submissão às regras do capital.
Hannah Arendt, quando acompanhou o julgamento de Eichmann em Jerusalém , chocou a comunidade judia ao dizer que o criminoso nazista não era um monstro, mas um indivíduo comum – um indivíduo que não tinha uma patologia específica, uma perversão, mas agia cumprindo ordens, sem se perguntar pelas consequências do que fazia, porque a responsabilidade e as decisões sobre o genocídio cabiam a instâncias superiores. Naturalmente, não se tratava, para a filósofa, de inocentar o carrasco, mas de mostrar como uma engrenagem perversa pode funcionar distribuindo suas tarefas e neutralizando, de alguma forma, a apreensão do mal maior (tornando invisível a contribuição de cada um na consecução do projeto destrutivo). A este processo Arendt chamou de banalidade do mal.

Voltando ao caso de Mariana: lógica e legalmente, a Samarco está sendo responsabilizada e deve arcar com os custos (embora seja evidente que estamos frente à demanda de reparar o irreparável). Porém, culpar apenas a Samarco é pouco; a extensão do mal é muito maior.

Da mesma maneira, sensibilizarmo-nos e solidarizarmo-nos com a dor das mortes e da destruição constitui um dever moral e sentimento humano básico ao qual não podemos nos furtar. No entanto, a comoção em torno das vítimas diretas desta tragédia não pode ofuscar o cenário de risco em que vive hoje a humanidade como um todo.

Assim, demonizar a Samarco, se comover com a situação das populações atingidas (de Bento Rodrigues, de todo o vale do rio Doce) não pode ofuscar uma consciência maior que momentos como esse teimam em gritar: sim, não foi um acidente. Mas a Samarco, assim com Eichmann, constitui apenas peça do sistema. Esta destruição é resultado (mais um dos resultados) do modelo de sociedade no qual vivemos, dos valores que imperam como dominantes. O capitalismo é altamente predatório; a sociedade de consumo que ele implantou (e que nós reafirmamos com nossos hábitos de vida) leva à exaustão e ao transbordamento do mundo natural. Adianta pouco culpar a Samarco, se não combatemos os ditames maiores aos quais ela obedece.

Porém, estaríamos nós dispostos a encarar mudanças no nosso próprio modo de vida? Dispostos a questionar modelos e valores que endossamos em nossos pequenos espaços de vida?

 

Vera França
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Coordenadora do Grispop

 

Confira as outras análises do “Dossiê Mariana”:

Acontecimento, enquadramentos e responsabilidades (Terezinha Silva)

Omissos, oportunistas e “funcionários do mês” (Gáudio Bassoli)

Rio Doce – Muito além de Bento Rodrigues (Raquel Dornelas)

Mobilização – Redes de afeto em torno do acontecimento (Marta Maia)

 

Esta análise compõe o “Dossiê Mariana” e faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do Grislab.



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