Análise | Religião

Dossiê Papa: O Papa e a homossexualidade

Desde que Francisco declarou, em 2013, “Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, grande parte dos fiéis católicos nutriram a esperança de que finalmente teriam sua sexualidade aceita pela igreja. Mas em 2015, uma série de acontecimentos jogaram um balde de água fria nessas expectativas. Um horizonte de possibilidades que havia se aberto pode agora estar se fechando? Qual seria a explicação para a contradição entre as declarações e atitudes do papa?

Fonte: Extra / Agência O Globo

Em 2010, o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, declarou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria um “ataque destrutivo aos planos de Deus”. O argentino se tornou papa em março de 2013, quando passou a ser Francisco. Em julho do mesmo ano, ele fez sua primeira viagem para fora da Itália como papa, vindo ao Brasil. Voltando a Roma, ele respondeu a uma pergunta feita pela correspondente da Globo no Vaticano, Ilze Scamparini, e surpreendeu: “Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”.

Desde então, grande parte dos fiéis católicos nutriram a esperança de que finalmente teriam sua sexualidade aceita pela igreja. Em setembro de 2013, durante a Parada LGBT de Belo Horizonte, as palavras de Francisco foram lembradas com satisfação no palco do evento. Na sequência, antes do Sínodo da Família de 2014, o papa divulgou um documento, o Instrumentum Laboris, sugerindo que a igreja deveria se abrir mais aos fiéis homossexuais.

Mas em 2015, uma série de acontecimentos jogou um balde de água fria nessas expectativas. Em abril, Francisco impediu que Laurent Stefanini, homossexual e católico, tornasse-se o embaixador da França no Vaticano. Em setembro, ele defendeu que funcionários públicos deveriam poder se negar a realizar atos que vão contra sua consciência, como emitir licenças de casamento para casais do mesmo sexo. No Sínodo da Família de 2015, em outubro, o papa defendeu e reiterou que o casamento é uma instituição que se aplica apenas à união entre um homem e uma mulher, sendo esse o “sonho de Deus”. Às vésperas do Sínodo, o padre polonês Krzysztof Charamsa, que vivia no Vaticano, revelou para a mídia italiana que é gay e tem um companheiro, sendo afastado de suas funções após a declaração.

A possibilidade de uma abertura da Igreja Católica à sexualidade dos fiéis homossexuais, aventada pela declaração do papa há quase três anos, abriu um horizonte de possibilidades que agora pode estar se fechando. Ou será que não? Quando um acontecimento mostra que algo é possível, como voltar a acreditar no contrário? Um papa pode se posicionar a favor dos fiéis homossexuais: é o que a declaração de Francisco em 2013 fez o mundo acreditar. Mesmo que ele “volte atrás” agora, a possibilidade já está aberta, e com ela uma cobrança que se torna permanente a partir de então.

Entretanto, será que ele estaria mesmo voltando atrás, ou nunca teria ido tão à frente assim? Tanto nessa primeira declaração como papa, quanto no documento que divulgou a seguir, não foi dito explicitamente que a igreja aceitaria a união entre pessoas do mesmo sexo. A ideia de não julgar o homossexual e estar aberto a ele pode ser pensada através da doutrina tradicional católica de aceitá-lo em castidade, por exemplo. Talvez a questão, no atual momento de inclusão LGBT no mundo ocidental, já não seja tanto o que a igreja quer dizer, mas o que os fiéis precisam escutar.

 

Vanrochris Vieira
Mestre em Comunicação Social pela UFMG
Professor da Universidade Vale do Rio Doce

Pesquisador do Gris/UFMG

 

Confira as outras análises do Dossiê Papa:

O discurso diplomático do Papa Francisco em Cuba (Maíra Lobato)

Papa visita os Estados Unidos (Juliana Ferreira)

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do Grislab.



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