Análise | Política

Dossiê Planalto Central – “Mulher: multidão*”: mulheres contra Cunha

Em outubro e novembro de 2015, manifestações de mulheres contra o deputado Eduardo Cunha ocuparam ruas de diversas cidades por todo o Brasil. O texto observa as reivindicações presentes nesses acontecimentos e as relaciona de maneira mais ampla com a atuação do deputado e com a visibilidade midiática de demandas feministas.

Mulheres contra Cunha em Belo Horizonte. Fonte: G1

Mulheres contra Cunha em Belo Horizonte. Fonte: G1

Entre os dias 28/10 e 13/11/2015, ocorreram diversas manifestações organizadas por mulheres em todo o Brasil, que saíram às ruas para protestar contra o Deputado Eduardo Cunha e, principalmente, pela vida das mulheres. Os protestos ocorreram em diversas capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belém, Goiânia, Curitiba, Manaus, Rio Branco, Campina Grande, entre outras.

Em Belo Horizonte, no dia 31/10, a manifestação ganhou contornos tensos, havendo conflito com policiais militares, que utilizaram a força para conter manifestantes, liberar faixas para o trânsito e deter dois menores presentes no protesto.

Entre as principais pautas dos protestos, destaca-se a oposição ao Projeto de Lei 5069, de 2013, do qual Eduardo Cunha é um dos autores, que pretende dificultar o acesso à pílula do dia seguinte e obrigar as mulheres que engravidarem por meio de estupro a fazerem o exame de corpo de delito antes de terem o direito ao aborto pela rede pública. O projeto é considerado um retrocesso na luta pela legalização do aborto.

Como presidente da Câmara dos Deputados, passam por Cunha todos os projetos de lei propostos pelos deputados federais, e é dele grande parte da responsabilidade por julgá-los legítimos. Desde que assumiu o cargo, Cunha já declarou que projetos sobre a legalização do aborto – e sobre direitos de casais homoafetivos – não serão votados “nem que a vaca tussa”, ou que o seriam somente por cima de seu cadáver.

Os protestos também chamaram a atenção para o Mapa da Violência 2015, relatório que registrou o aumento em 54% dos homicídios contra mulheres negras entre 2003 e 2013, frente à redução de 10% dos casos envolvendo mulheres brancas. As manifestantes ainda pediam pela saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara de Deputados. De modo geral, a luta clama pela vida das mulheres, pelo direito sobre o próprio corpo, pelo respeito.

O El País Brasil identifica o momento atual como “primavera feminista”, em que as mobilizações nas ruas e nas redes têm promovido uma “visibilidade inédita para as questões das mulheres no Brasil”. Faz sentido. Por exemplo, o engajamento virtual em torno das hashtags #ChegaDeFiuFiu, #MeuPrimeiroAssédio, e #MeuAmigoSecreto resultou em um aumento de 40% nas denúncias de violência contra a mulher feitas pelo número 180, segundo a Central de Atendimento à Mulher, em relação a 2014.

Outro exemplo: em dezembro, a edição brasileira da revista Elle lançou uma edição especial sobre “Moda e Feminismo”, com quatro capas diferentes, cada uma com uma modelo com pele e cabelos diferentes (mas todos os corpos são magros), e com frases que vem sendo utilizadas por feministas, como “Meu corpo, minhas regras”.  No Facebook, a edição é divulgada com as hashtags #JuntasSomosMais e #MexeuComUmaMexeuComTodas.

Ainda que estejam presentes na chamada “mídia de referência”, é curioso perceber que os protestos das mulheres contra Cunha não tenham ganhado lugar de destaque, como observamos no monitoramento diário realizado pelo GrisLab para a produção do Radar.

Mesmo lutando contra a corrente e o desinteresse da mídia, é nos esforços espontâneos por ampliar a visibilidade das demandas feministas que parece morar a real potência para a transformação do cenário de desigualdade, opressão, desrespeito e negação de direitos vivenciado cotidianamente por nós mulheres. É assim que estamos conseguindo nos fazer vistas e ouvidas, apesar e contra os esforços contrários.

 

Ana Karina Oliveira
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris

 

Confira outras análises do “Dossiê Planalto Central”:

O último achaque de Cunha (?) (Gáudio Bassoli)
A(s) carta(s) de Temer (Suzana Cunha Lopes)

 

Esta análise compõe o “Dossiê Planalto Central” e faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de dezembro, definido em reunião do Grislab.

* A expressão “Mulher: multidão” é parte do poema “Pulso aberto” do livro “Carne do umbigo”, de Maria Rezende.



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