Análise | Política

Dossiê Planalto Central – O último achaque de Cunha (?)

A análise trata do rito de impeachment iniciado por Eduardo Cunha: as causas, contradições e o horizonte de possibilidades abertos com o gesto desesperado do atual presidente da câmara dos deputados.

Eduardo Cunha - Wilson Dias (Agência Brasil)

Eduardo Cunha – Wilson Dias (Agência Brasil)

Passaram-se nove meses desde que o então ministro da educação Cid Gomes chamou parlamentares e especificamente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de achacador – o que acabou rendendo sua demissão. De lá pra cá, muitas águas rolaram: o tragicômico acontecimento Cunha – de paladino da moralidade a nome constante nos noticiários sobre a Operação Lava-Jato – foi visto em análise anterior aqui neste GrisLab.

Pois bem, na opinião de quem escreve, um dos raros momentos de lucidez do Partido dos Trabalhadores e do Planalto nos últimos tempos foi a negação (ou a desistência) de se negociar e blindar Cunha contra a pressão que vem sofrendo desde que se descobriu suas contas na Suíça. Para o parlamentar, ironicamente o problema maior nem é o dinheiro e sua origem: a encrenca mesmo foi a mentira na CPI da Petrobras, ao dizer que não tinha contas no estrangeiro; o que formalmente pode lhe render perda do mandato – no melhor estilo Al Capone, preso por fraudar o imposto de renda. A entrada com o pedido do impeachment pareceu uma reação desesperada: surfando na prisão do senador petista Delcídio (que também será analisada neste Dossiê), foi uma busca pelo apoio da oposição (que novamente estende a mão ao parlamentar, mesmo com alguns jogos de cena) e de segmentos da população descontentes com o governo – alguns a ponto de apostar em sandices como “intervenção militar” (não custa lembrar, eufemismo que significa ditadura).

Deu certo? Por um lado, sim: as acusações contra Cunha agora dividem os noticiários com o processo que pode tirar do cargo a presidenta. Um pedido de prisão do parlamentar por conta das manobras que ele e seus aliados têm realizado tentando mantê-lo no cargo – configurando obstrução da justiça tanto quanto as ações de Delcídio, cuja prisão abriu precedente para o mesmo com o presidente da câmara – causaria certo mal-estar ao ser associado ao processo de impedimento da chefa do executivo, correndo o risco de ser rotulado como retaliação. Tudo pode depender dos desdobramentos da operação da Polícia Federal de hoje, que fez buscas de provas de lavagem de dinheiro na Suíça, inclusive indo à casa do deputado.

Por outro lado, no primeiro pronunciamento após a “cartada” de Cunha, a presidenta deixou claro que “não tem contas na Suíça”, fazendo referência ao opositor. Enfrentar o fantasma do impeachment e sair vencedora pode fortalecer a desgastada gestão, encerrando uma ameaça que ronda desde o início do segundo governo Dilma. Um adversário desmoralizado é o ideal neste cenário. As manifestações do dia 13, com menos participantes do que o esperado, parecem indicar como um rito iniciado por alguém atolado em denúncias carece de legitimidade. Ainda assim, há os que chamem Cunha de “meu malvado favorito”, “o cara errado, no lugar certo, na hora certa, fazendo o certo pelo motivo errado”.

O Brasil é um país de contradições evidentes. Na Guerra Fria, em nome do enfrentamento da ameaça de torturas e assassinatos dos regimes socialistas, torturou-se e matou-se. Para enfrentar a criminalidade, promove-se a violência policial e o linchamento – ambos crimes. Agora, em nome da moralidade, se promove a mais descarada imoralidade. Que este seja o último achaque de Cunha.

 

Gáudio Bassoli
Mestrando do PPGCOM-UFMG
Jornalista e membro do Gris

 

Confira outras análises do “Dossiê Planalto Central”:

“Mulher: multidão*”: mulheres contra Cunha (Ana Karina Oliveira)
A(s) carta(s) de Temer (Suzana Cunha Lopes)

 

Esta análise compõe o “Dossiê Planalto Central” e faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de dezembro, definido em reunião do Grislab.



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