Análise | educação

Frota na terra de Freire: provocação e deboche

A audiência do ator pornô Alexandre Frota com o ministro interino da Educação é uma provocação e um deboche. A mensagem invertida é que a educação considerada como ideológica pelo governo interino está no mesmo nível da pornografia.

Foto postada no Instagram de Alexandre Frota. Fonte: G1

Foto postada no Instagram de Alexandre Frota. Fonte: G1

Após o afastamento provisório da Presidenta da República, Dilma Rousseff, a opinião pública brasileira tem sido sacudida por acontecimentos resultantes da nova agenda política do governo interino. No dia 25 de maio, o ministro provisório da Educação, José Mendonça Filho (DEM-PE), recebeu em seu gabinete, e como parte de sua agenda, o ator Alexandre Frota, que se destaca na indústria nacional do cinema pornô. Frota, em representação de vários movimentos políticos a favor do impeachment, entregou uma proposta defendendo a “escola livre de ideologias”, onde esteja proscrito falar de igualdade de gênero, criticar as desigualdades de classe, discutir com os jovens a vivência da sexualidade, entre outros. Estes tópicos seriam incompatíveis com a natureza pública dos serviços educativos ofertados pelo Estado.

O fato inusual dessa audiência (difícil imaginar o ministro da Educação da Espanha, por exemplo, com hora marcada para receber Nacho Vidal) exige explicitar seus vários significados. Em primeiro lugar, no mundo da cultura de massas do ocidente, o cinema pornô é um produto aceito e os agentes do mercado, incluídos os artistas e produtores, são pessoas integradas no pluralismo ético de uma sociedade secular. Agora, o que causa hilaridade ou perplexidade na audiência de Frota com o ministro interino da Educação não é a condição profissional do Arauto nem o mérito polêmico de sua mensagem em prol de uma suposta educação ideologicamente neutra, e sim o lugar que ocupa a educação na agenda política do governo interino.

Em um país paradoxal como o Brasil, onde ainda não conseguimos a plena universalização dos serviços educativos, mas que ao mesmo tempo ostenta um dos pedagogos e educadores mais conotados do Planeta – o pernambucano Paulo Freire, que, aliás, não é profeta em sua própria terra -, a audiência de Mendoncinha e Frota é um deboche e uma provocação. Deboche porque um personagem sem nenhum mérito educativo ou científico é recebido sob holofotes na sede do ministério da Educação e pela mais alta autoridade do Estado na matéria.  A desculpa de que o ministro não discrimina ninguém pela sua condição profissional está no centro do deboche. Óbvio, todos os cidadãos merecem atenção e estima de um ministro de Estado, começando pelos mais vulneráveis. A mensagem invertida parece ser a seguinte: a educação tida como ideológica pelo governo interino merece o mesmo tratamento que a pornografia. Eis a provocação. Na mentalidade dos novos inquilinos do Planalto, a consideração do pluralismo de gênero, por exemplo, está no mesmo nível que o pornô. Pior ainda, um pornô-arauto, que já confessou publicamente um estupro, torna-se agente neutralizador da suposta lavagem cerebral a que estariam sendo submetidas as crianças por parte de gays e lésbicas que falavam ao ouvido da Presidenta afastada.

Em síntese, Mendoncinha tornou Frota um pornô-idiota a serviço de uma agenda política reacionária, cimentada nos valores do pentecostalismo que controla o Congresso e que compõe a base do governo provisório.

 

Silvio Salej Higgins
Professor de Sociologia da UFMG

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de julho, definido em reunião do GrisLab.



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