Análise | Infância e juventudde

Funk, Melody e a sexualização infantil

A análise observa como a imagem e a trajetória da funkeira mirim MC Melody trazem à tona a necessidade de atenção a temas importantes ligados à preservação da integridade da criança. Entre eles, a exploração do trabalho infantil, a superexposição, a sexualização precoce e a pedofilia.

MC Melody. Fonte: UOL

MC Melody. Fonte: UOL

Não há dúvidas que o YouTube é capaz de dar visibilidade e transformar alguém em uma (web)celebridade do momento. Porém, o número cada vez maior de crianças “youtubers” chama atenção e desperta críticas na internet. Exemplo disso é a pequena Melody de Abreu, mais conhecida como MC Melody. Com apenas oito anos de idade, a funkeira mirim experimenta a fama e possui uma agenda que prevê não somente gravações de vídeos para o YouTube, mas entrevistas, ensaios fotográficos e programas de TV. Melody possui mais de 1,5 milhão de seguidores no Facebook e o vídeo mais assistido do seu canal no YouTube já superou a marca de 3 milhões de visualizações. Estima-se que a pequena embolsa cerca de 40 mil reais por mês com a sua carreira.

O empresário de Melody é o seu próprio pai, Thiago de Abreu, o MC Belinho. Alguns internautas, inconformados com a postura e a exposição de Melody, são enfáticos em acusar o funkeiro de hiperssexualizar e explorar o corpo de sua filha. Em muitos comentários é possível perceber que o incômodo está no modo como Melody se veste e nas letras das músicas, consideradas impróprias para crianças e repletas de apelo sexual. Em entrevista para o jornal Extra, MC Belinho chegou a afirmar que todas as atitudes de sua filha são naturais. “Ela faz tudo sozinha, eu não mando fazer nada. Falam que vão denunciar pro ‘Conselho Tutelar’, mas não vamos parar, podem denunciar até pro papa”.

A repercussão do caso Melody ultrapassou os limites da internet. O Ministério Público (MP) do de São Paulo abriu um inquérito para investigar possíveis violações do direito ao respeito e à dignidade de crianças e adolescentes. Sob ameaça de perder a guarda da filha, MC Belinho veio a público para relativizar sua fala. O funkeiro disse que a filha não faz apresentações de forma profissional, que não incentiva a gravação de vídeos para obter lucro e que a denúncia no MP não passa de um preconceito com o funk. Entretanto, MC Belinho afirmou que mudaria a postura da filha para evitar transtornos de ali em diante.

Toda a trajetória de Melody, dada suas proporções, pode ser entendida como um acontecimento que permite ver uma série de valores em conflito. Temas como a sexualidade precoce, o machismo, a pedofilia e, até mesmo, o trabalho infantil estão diretamente ligados com o sucesso da pequena funkeira. De início, o assédio em torno de uma criança revela uma face sórdida do machismo em um espaço onde a liberdade de expressão se confunde com discursos nos quais uma criança torna-se objeto a serviço de desejos sexuais. Melody já foi chamada de “monumento de mulher”, de “delícia” e de uma série de outros adjetivos pedófilos sob justificativas de que uma criança que sabe rebolar e fazer “caras e bocas” na internet está preparada para esses “elogios” e, sobretudo, para se relacionar sexualmente. O estímulo à pedofilia é um dos desdobramentos nocivos da sexualização infantil, pedofilia essa que é disfarçada e tornada aceita dia após dia.

Todavia, não bastasse a hostilidade do cenário permeado por comentários pedófilos e machistas, a exposição de Melody na mídia chama atenção para a exploração do trabalho infantil. Trabalhar não é crime, e alguns tipos de trabalho desenvolvidos por menores são permitidos por lei. Mas em nenhum momento a integridade de crianças e adolescentes pode ser violada. Dessa forma, as inúmeras aparições e compromissos da agenda de Melody ressaltam que aspectos de sua infância estão sendo deixados para trás em prol da fama e do dinheiro. E Melody não é a única MC mirim do cenário midiático. Outras crianças estão envolvidas nesse mercado capaz de movimentar cifras grandiosas com o sexo como matéria-prima. Essa é, aparentemente, uma fórmula de sucesso para o mundo do funk, mas que não escapa ao criticismo da internet.

 

Bruno Menezes
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisador do Gris

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de maio, definido em reunião do GrisLab.



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