Análise | Política Vida social, normas e valores

Haitianos no Brasil

Acontecimento que expõe antigos e novos problemas públicos

 

A partir de casos recentes de libertação de trabalhadores mantidos em condições análogas à escravidão, a análise mostra como as ocorrências se articulam a um acontecimento mais amplo (a imigração contemporânea no Brasil) e como elas expõem antigos e novos problemas coletivos que demandam soluções.

 

Se há um aspecto central na definição de uma ocorrência como um acontecimento, é o seu potencial de revelar problemas da vida coletiva e de abrir caminho para ações buscando solucioná-los (Quéré, 2005). A recente operação de fiscais do Ministério do Trabalho – que libertou doze imigrantes do Haiti e dois da Bolívia mantidos em condições de trabalho escravo, em uma oficina de costura na cidade de São Paulo, é um desses casos. Revela e articula problemas públicos antigos e novos, como se pode apreender das narrativas de diferentes mídias, que repercutiram a ocorrência a partir do dia 22 de agosto.

Embora não sejam “acontecimentos de rotina” (1999), o resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão não é propriamente uma novidade no Brasil. E isso é, provavelmente, um dos motivos que mais choca: saber que pessoas e seu trabalho ainda são assim explorados, nesses tempos e lugares ditos modernos. Os próprios relatos lembram o passado extremamente recente de libertação de outros trabalhadores assim tratados: imigrantes bolivianos explorados por oficinas prestadoras de serviço para grifes famosas (M. Officer, Zara etc.) em São Paulo ou trabalhadores brasileiros traficados e explorados nos canteiros de obra da empreiteira brasileira Odebrecht em Angola.

Mas é a primeira vez – destacam algumas narrativas -, que imigrantes haitianos são encontrados em condições de trabalho escravo no estado de São Paulo e no setor têxtil. Antes, nos relatam, 100 haitianos (além de 60 trabalhadores de Sergipe, Pernambuco e Piauí) haviam sido libertados na cidade de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, numa obra destinada à mineradora multinacional Anglo American. Além deles, mais 21 haitianos foram resgatados na obra de uma construtora em Cuiabá, no estado de Mato Grosso.

Mesmo analisada isoladamente, a recente operação de fiscalização do Trabalho em São Paulo já revela, portanto, aos menos dois “campos problemáticos” (Quéré, 2005), ou seja, dois conjuntos de problemas públicos. Primeiro, a persistência, nos tempos atuais e em várias cidades, de trabalho em condições análogas à escravidão. Segundo, a relação (de exploração) imposta e a forma de representar determinados grupos de imigrantes, entre os vários, que nos últimos anos tornaram o Brasil novamente um país de imigração.

O acontecimento, porém, não é algo isolado. A libertação dos trabalhadores nas oficinas de costura em São Paulo, todos imigrantes, inscreve-se, também, na intriga de um acontecimento mais amplo – a imigração transnacional no Brasil, particularmente a presença da “diáspora haitiana” no contexto atual brasileiro (Cogo, 2014). Este acontecimento, por sua vez, tem sido revelado e composto por ocorrências correlatas que vem sendo constantemente noticiadas, especialmente a partir das controvérsias entre os governos dos estados de São Paulo e do Acre a propósito da situação e do destino dos haitianos no Brasil.

A força e o poder de afetação do acontecimento têm sido evidenciados pela forma como ele tem interpelado diversos atores a se posicionarem e a agirem – desde os imigrantes mais diretamente afetados e organizações civis solidárias, até instituições e poderes públicos de diferentes esferas. Estão implicados na definição de propostas – como a revisão do Estatuto do Estrangeiro – que contribuam ao tratamento adequado da situação, reconhecendo os imigrantes como sujeitos de direitos num contexto em que o Brasil volta a ser um país de imigração.

 

 

Referências:

COGO, Denise. Haitianos no Brasil – comunicação e interação em redes migratórias transnacionais. In: Revista Chasqui, No. 125, março 2014. pp. 23-32.

MOLOTHC, H. e LESTER, M. As noticias como procedimento intencional: acerca do uso estratégico de acontecimentos de rotina, acidentes e escândalos. pp. 34-60 . In: TRAQUINA, N. (org.) Jornalismo: questões, teorias e estorias. Lisboa: Vega, 1999. Pp

QUÉRÉ, Louis. Entre facto e sentido: a dualidade do acontecimento. In: Trajectos. Revista de Comunicação, Cultura e Educação, nº 6. Lisboa: ISCTE / Casa das Letras / Editorial Notícias, 2005, p. 59-75.

 

Terezinha Silva
Professora colaboradora do Departamento de Comunicação da UFMG e pesquisadora do GRIS (Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade)



Comentários

  1. Fiquei chocado com a persistência de trabalho escravo na sociedade brasileira. Já estranhava esse fato quando considerava que eram casos isolados, agora que percebo um padrão, em pleno século 21, isso me parece um absurdo. Revela não apenas uma falta de caráter e ética dessas pessoas que submetem os imigrantes, mas também uma incompetência do sistema policial para lidar com esse assunto. Ótima análise e tema bem escolhido.

Comente

Você dever estar logado para deixar um comentário. Caso não tenha um login, cadastre-se em nosso site.