Análise | Violência

Judith Butler, o ódio ao outro e os riscos da democracia no Brasil

O texto reflete sobre as agressões enfrentadas pela filósofa Judith Butler e por sua companheira, a cientista política Wendy Brown, em sua passagem pelo Brasil. Olhando para esse acontecimento, a análise atenta para o crescente ódio ao outro e à impossibilidade do diálogo que marcam o contexto brasileiro contemporâneo – colocando em risco valores centrais em uma sociedade democrática.

Foto: Wikimedia Commons.

“Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em uma fantasia”. É assim que Judith Butler inicia o texto[1] em que comenta os ataques que sofreu em sua passagem pelo país no início de novembro. A filósofa veio participar do seminário Os Fins da Democracia e enfrentou protestos de grupos de conservadores que a acusavam de ser a proponente da chamada ideologia de gênero. Mais de 350 mil pessoas assinaram uma petição online para tentar impedir a realização do evento no Sesc Pompeia em São Paulo.[2] Para Butler, tais grupos buscavam impedir o proferimento de uma palestra imaginada, pois o tema de sua conferência de abertura foi a questão Israel-Palestina. “Não sei ao certo que poder foi conferido à palestra sobre gênero que se imaginou que eu daria. Dever ter sido uma palestra muito poderosa, já que, aparentemente, ela ameaçou a família, a moral e até mesmo a nação”, escreve a filósofa no mesmo texto.

Longe de tentar esgotar esse acontecimento ou mesmo explorar a fundo o texto citado de Butler – que merece leitura –, gostaria de pensar aqui sobre emergência de tal acontecimento e suas relações com o contexto brasileiro contemporâneo. Ou seja, refletir sobre o poder hermenêutico de tal ocorrência e o que esta revela sobre a sociedade em que vivemos.

Nas manifestações em frente ao Sesc, vimos cartazes e camisas dizendo: “-Butler, +Família”, “Em defesa das princesas do Brasil”, “Intervenção já – Ordem e Progresso”, “O chefe destruiu o Brasil” (com uma foto de Lula e vários dizeres “ladrão”), “Meus filhos, minhas regras – #NãoaDoutrinação, #EscolaSemPartidoJá”. O que vemos em tais clamores é a defesa das verdades de cada um/a, perpassadas por um ódio dirigido a Butler que parece ter personificado o que certos grupos consideram as grandes mazelas de nosso país: Lula, a liberdade de ensinar em sala de aula, as transformações no entendimento da questão de gênero na sociedade brasileira.

No aeroporto de Congonhas, Judith Butler e sua companheira, a cientista política Wendy Brown (que também veio a trabalho ao Brasil), foram agredidas por manifestantes. Aos berros de “Vagabunda”, “Corruptora de menores”, “Assassina”, “You are not welcome here”, “You guys are evil”, algumas mulheres protestavam na área de check in. Como compreender tais agressões? Podemos ver em tal violência uma das manifestações que compõe o que Marcia Tiburi[3] reconhece como o avanço do fascismo em nosso dia a dia: “o ódio ao outro cresce em uma sociedade em que está em jogo também o extermínio da política”, escreve a filósofa. Um ódio que cresce paralelamente à impossibilidade do diálogo, sobretudo, com aqueles que não compartilham de sua visão de mundo. Um ódio que cresce a cada dia e põe em risco valores como o respeito, a igualdade, a justiça, centrais nos rumos da própria democracia.

Paula Simões
Coordenadora do GrisLab e Professora do PPGCOM-UFMG

[1] Judith Butler escreve sobre sua teoria de gênero e o ataque sofrido no Brasil – Folha de São Paulo

[2] “OS FINS DA DEMOCRACIA” E JUDITH BUTLER NO BRASIL – NUH (Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT)

[3] TIBURI, Marcia. Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.



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