Análise | Política

Kalil X camelôs: um conflito, duas imagens

Um mesmo acontecimento pode produzir sentidos diversos e ajudar a construir imagens públicas opostas. A partir da análise do confronto entre os camelôs do centro de Belo Horizonte e a Prefeitura, podemos perceber como as imagens do movimento social e do prefeito Alexandre Kalil são construídas, convocando valores acerca da ordem pública, trabalho e gênero.

Fotos: Estado de Minas

Julho começou com um estouro em plena Praça Sete, literalmente. No último dia 3, o centro da cidade foi palco de um confronto entre a PM e vendedores ambulantes da área. O que causou o conflito? A Prefeitura de Belo Horizonte, baseada no Código de Posturas do Município, realizou uma operação de retirada dos camelôs da região. Os camelôs, pegos de surpresa, tiveram suas mercadorias apreendidas e foram forçados a desocuparem as ruas.

O acontecimento suscitou debates tanto no nível nacional quanto local. Ao mesmo tempo que iluminou um cenário de crise – no qual a alternativa do trabalho informal se apresenta como única saída para a subsistência – o fato causou impacto na cena política local, trabalhando na construção da imagem pública do atual prefeito.

De um lado, Kalil é apresentado como gestor eficiente, que não estaria fazendo nada além de seu trabalho. Não por coincidência, o G1 e Estado de Minas destacaram a mesma fala do prefeito em suas manchetes: “É uma operação definitiva e sem volta.” Ao longo das matérias, o valor da eficiência vem à tona diversas vezes, ao confirmarem  que a ação era planejada e foi até mesmo adiantada pela administração municipal. Na sessão de comentários, a eficiência aparece de mãos dadas com os valores de rigidez e ordem. Não podemos deixar de notar que tais valores contribuem para a formação de uma imagem centrada no que é socialmente entendido como masculino. Alexandre Kalil seria, portanto, um homem de “pulso firme”, que “coloca ordem nas coisas”, como destacam alguns comentários das notícias dos portais. Em uma notícia relacionada do Estado de Minas, um dos comentários vê as atitudes de Kalil como de um “macho“. Percebemos, assim, como uma cultura machista indica o modus operandi desejável em um homem: imponente e eficaz, custe o que custar.

Por outro lado, observamos uma construção criminalizadora da atuação dos camelôs. No G1, eles são caracterizados por Kalil como “um bando de 50 contrabandistas de cigarro”. O vídeo da Globo Minas, postado junto à notícia, relata que os camelôs teriam “obrigado” os comerciantes a fecharem as portas, além de estarem “queimando objetos para impedir a passagem dos carros”. A voz em off narra o conflito: “A confusão se espalhou. Comerciantes fecharam as portas para evitar vandalismo.” No Estado de Minas, a matéria sequer dá voz aos manifestantes. Em contrapartida, as falas do prefeito, da secretária municipal de Serviços Urbanos e do comandante do 1º BPM compõem o texto, justificando a ação policial como uma simples reação aos manifestantes. Observamos, portanto, que há uma forte vinculação entre o trabalho informal e a ilegalidade nas falas dos veículos e das autoridades entrevistadas. A imagem dos camelôs enquanto movimento social é perpassada pela insegurança e pelo medo, transformado-os em infratores da ordem pública e da lei.

Maria Lúcia de Almeida Afonso
Mestranda do PPGCOM-UFMG
Pesquisadora do GRIS



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