Análise | Justiça

Lavando com Sangue

O texto analisa o suicídio do reitor da UFSC, professor Luiz Carlos Cancellier, preso e humilhado após denúncia do corregedor da universidade de que teria interferido em investigações internas acerca de supostos desvios em um programa de educação a distância. A análise mostra que o sentimento de humilhação e desesperança que tomou conta dele levou-o ao suicídio, um alerta dramático a respeito do estado de exceção que tem se formado no Brasil.

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS.

A “Constituição Cidadã” de 1988 nos trouxe muitas coisas boas, porém também algumas ruins. Estre estas últimas, temos o fortalecimento excessivo – com uma autonomia e um poder sem semelhantes no mundo civilizado – dos organismos de controle do estado brasileiro, em particular o Ministério Público. Com o tempo, o poder e a autonomia do MP virou um vício que, através de um mecanismo que nós, sociólogos, chamamos de “isomorfismo normativo”, se espalhou por todos os órgãos de controle de todas as esferas públicas.

O suicídio do professor Luiz Carlos Cancellier, reitor da UFSC, é um alerta dramático a respeito do estado de exceção que tem sido formado no Brasil a partir desse isomorfismo normativo ao qual me referi acima. Juntam-se, no caso em tela, vários dos elementos (e até atores) centrais dessa nova cultura normativa, visto que Cancellier foi preso e humilhado após ter sido denunciado pelo Corregedor da universidade (que, ao contrário do que ocorre em outras IFES, não é um membro da comunidade acadêmica, tendo sido indicado pela CGU) por interferir em investigações – interferência essa caracterizada pelo simples fato de ter cometido o ato de ofício de buscar inteirar-se de procedimentos que ocorreram na organização sob sua autoridade.

O reitor Cancellier jamais foi ouvido pelo corregedor, nem pela delegada da PF que pediu a sua prisão, nem por qualquer procurador do MP ou pela juíza que decretou seu encarceramento. A impressão que fica é que esses funcionários graduados do estado brasileiro nunca ouviram falar em direito de defesa e de exposição do contraditório.

Depois de solto, o reitor foi proibido de frequentar as instalações da UFSC. Tudo isso sem um único processo acusatório formalizado. Mais recentemente, ficamos sabendo que o abuso de autoridade chegou ao ponto da negação de atendimento religioso. O sentimento de humilhação e desesperança que tomou conta de Cancellier levou-o ao suicídio.

O paroxismo do estado de exceção que se vive hoje no Brasil se deu a partir da festejada operação Lava Jato. Com o suicídio do reitor da UFSC, entramos numa nova fase na qual as esperanças de construção de uma sociedade democrática no Brasil começam a ser lavadas com sangue.

Jorge Alexandre Barbosa Neves
Professor do Departamento de Sociologia da UFMG



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