Análise | Política

Manifestações de março anunciam a indiferença do governo à voz do povo e a brecha que se abre para a resistência

O mês de março foi palco de uma série de manifestações, com propostas e reverberações diferentes, tanto inscrevendo a tentativa de resistência ao golpe como a indiferença do governo à voz das ruas. A elite não precisa mais demonstrar amor à pátria aos domingos (afinal, bastava tirar a Dilma da presidência). Com o esvaziamento dos verde-amarelos nas ruas, esse espaço poderá se tornar a principal (e talvez única) forma de resistência e enfrentamento do golpe pelos movimentos de oposição.
Foto: Paulo Pinto/Agencia PT

Foto: Paulo Pinto/Agencia PT

O mês de março foi palco de uma série de manifestações e reverberações, ecoando as marcas do golpe e tentativas de resistência.

No dia 15 de março, batizado Dia Nacional de Mobilização e Paralisação Contra a Reforma da Previdência, manifestações foram convocadas pelas centrais sindicais, pela “Frente Brasil Popular”, “Povo sem Medo” e outros grupos. Em algumas capitais, houve greves e paralizações em setores de atendimento básico, como transporte público, protestando contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, a Reforma da Previdência, reiterando a oposição ao governo de Michel Temer e a pré-candidatura de Lula para as eleições de 2018. A presença do ex-presidente, inclusive, deu mais efervescência à manifestação em São Paulo, capital que reuniu o maior número de manifestantes (cerca de 200 mil).

Já no dia 26, os grupos “Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre” (MBL), convocaram manifestações tendo como principal pauta a defesa da Lava-Jato, mas também a defesa de iniciativas como o fim do foro privilegiado para deputados e senadores, a criminalização do caixa dois e o apoio ao juiz federal Sérgio Moro. Diferente de outros protestos promovidos pelos mesmos grupos, as ruas dessa vez ficaram esvaziadas. Apesar de haver movimentações nas principais capitais, os números, em vários casos, não chegavam a 500 pessoas.

No dia 31 de março foi organizada nova manifestação de cunho oposicionista. Não obstante, e indiferente aos protestos, Temer, sancionou naquela noite o projeto que regulamenta a terceirização no Brasil, após a aprovação no Congresso no dia 22. Com isso, março fechou o balanço de mais um mês de retrocessos sociais, sombreado pela operação Carne Fraca da Polícia Federal (Leia as análises publicadas sobre o tema no GrisLab), com a consolação da condenação do ex-deputado, cassado, Eduardo Cunha no dia 30.

Não se percebe maior repercussão das manifestações nas esferas de decisão política. O governo Temer ignora piamente qualquer grito contrário e já deu o recado que independe do apoio ou oposição popular para dar andamento às reformas que correm para ser aprovadas pelo legislativo condescendente.

Até mesmo as últimas manifestações do segmento verde-amarelo perderam a força e são igualmente indiferentes para os rumos do governo. Elas indicaram um esvaziamento da elite nas ruas; seu objetivo foi atingido e, nesse momento, a avalanche de denúncias e a evidência da extensão da corrupção não lhe interessam mais. O próprio tema da corrupção já não provoca reações.

O golpe avança pelas vias institucionais, seja o legislativo ou o judiciário, e as consequências se fazem sentir no cotidiano do/as brasileiro/as.  O movimento da direita refluiu; as manifestações de protesto mantêm algum alento, mas a grande camada da população que vem sendo atingida pela crise econômica e será mais duramente afetada pelas reformas em curso permanece pouco ativa. O golpe avança – e as ruas se tornam a única chance de se combater o retrocesso. Para isso, e para se fazerem ouvir, precisam ser ocupadas.

Suzana Lopes
Doutoranda do PPGCOM-UFMG
Pesquisadora do GRIS

Ana Luiza Azevedo Pires
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará



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