Análise | Política

O acontecimento histórico: disputa e negação

A partir da declaração do primeiro ministro de Israel, Netanyahu, de que Hitler não queria matar os judeus e o fez por sugestão de um palestino, a análise reflete sobre como a negação perpassa uma série de acontecimentos históricos, de acordo com grupos e interesses políticos. A disputa dos significados, pressuposto da democracia, muitas vezes se degenera em mentiras e numa história “mal contada”, que ameaça os esforços de convivência dos diferentes.

Fonte da imagem: photoree.com

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O já turbulento conflito entre Israel e Palestina foi intensificado por uma declaração do primeiro-ministro de Israel. Netanyahu negou que Hitler quisesse a “solução final”: a morte dos judeus seria culpa de uma sugestão do palestino Haj Amin al-Husseini. Ironicamente, parece que a causa palestina enfrenta agora um inimigo em comum com os judeus: a negação histórica. Entre os antissemitas que reivindicam a não existência do holocausto, destacamos o caso do iraniano Ahmadinejad. Claro, negar a intenção de Hitler também é um ataque aos próprios judeus – talvez por isso Netanyahu tenha “voltado atrás”, mantendo a mão pesada com os palestinos, deixando de “aliviar” para Hitler.

A negação histórica pode se dar em diferentes níveis: pode se negar o acontecimento, seus responsáveis e seu impacto. O massacre de judeus (além de ciganos, comunistas e homossexuais) protagonizado pelos nazistas não é o único acontecimento histórico em que é possível observar controvérsias, disputa de sentidos e negações.

No campo político, é possível citar vários casos: liberais negando que as crises de 1929 e de 2008 tenham sido causadas pelo livre (ou libertino?) mercado; socialistas negando que a tragédia soviética tenha sido socialista; conservadores brasileiros negando a perversidade de um regime que torturava crianças (com a audácia de compará-lo com outros governos autoritários ainda mais assassinos da época e chamar a nossa ditadura de “ditamole”).

Mais recentemente, no Brasil, num processo que possivelmente vai estar nos livros de história daqui a alguns anos, “simpatizantes” e “detratores” do Partido dos Trabalhadores se negam a ver a corrupção; os primeiros, dos membros do PT; já os outros, dos opositores (como Eduardo Cunha). Existe uma série de acontecimentos em que a negação se coloca: a lista poderia se prolongar infinitamente.

Sabemos que os significados do acontecimento estão em disputa, que a história não é única, que há o dever, sim, de revisitá-la e de interrogá-la sob diferentes perspectivas. A democracia pressupõe, realmente, pluridade de interpretações. Mas a negação preocupa, constituindo-se uma jogada política perigosa: torna o diálogo entre os diferentes impossível – tirando dos nossos pés o chão do que temos em comum; isola sujeitos em grupos de afinidade, alimentando o fundamentalismo; e pode fazer emergir o risco de se repetir o passado, ignorando os como’s e os porquê’s da forma em que ele se deu. Até porque, o mesmo Marx que formulou a desastrosa ideia de “ditadura de proletariado” (fato negado por alguns de seus simpatizantes) nos avisou com brilhantismo (negado por vários de seus detratores) que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.

O acontecimento permite emergir diferentes olhares e, por isso mesmo, diferentes verdades. A negação do acontecimento, em qualquer nível, traz à tona a mentira, que, independente de ser bem ou mal intencionada – pode nos levar à barbárie. Ou ainda pior: manter-nos nela.

 

Gáudio Bassoli
Mestrando do PPGCOM-UFMG
Jornalista e membro do Gris

 

Esta análise foi escrita a partir de sugestão do autor.



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