Análise | Política

O acontecimento PMDB: o partido que vem sacudindo a conjuntura política nacional

O rompimento do PMDB com o governo da presidenta Dilma Rousseff agitou os ânimos da política nacional e implantou uma incerteza sobre os rumos políticos do país.

Blog do Noblat

Fonte: Globo.com

Poucos minutos, assim se resumiu, em grande parte da mídia, a saída do PMDB do governo Dilma. A decisão aconteceu na reunião do Diretório Nacional do partido, no dia 29 de março e, mesmo sem estabelecer uma data limite, proíbe que os filiados do PMDB ocupem qualquer cargo no governo.

A saída da principal base aliada governista movimentou o cenário político nacional e, segundo especialistas, veio agravar ainda mais a crise política. Como nos diz Quéré (2012), a emergência do acontecimento convoca um passado e futuro, que passam a existir a partir de sua irrupção. No que se refere ao passado, percebemos que a saída do PMDB é em parte explicada pela mídia como resultado do descontentamento do partido com o papel que vinha ocupando no governo, sendo que os recentes esforços governistas para a ampliação dos cargos ocupados pelo partido não conseguiram diminuir a tensão entre eles. A narrativa jornalística buscou evidenciar que o acontecimento não foi de fato uma grande surpresa, já que alguns membros da sigla já vinham defendendo a saída do PMDB da base aliada, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que pessoalmente já tinha se afastado do governo. Outro indício deste descontentamento é a carta de Michel Temer, em dezembro de 2015, na qual o vice-presidente alegava ter sido transformado pela presidenta Dilma Rousseff em um “vice-decorativo”.

Ainda em relação ao passado, este, porém, pouco anunciado pela mídia, temos que considerar o papel que o PMDB tem ocupado ao longo dos anos no cenário político brasileiro. Mesmo sem ter elegido diretamente um presidente, nas últimas três décadas, a legenda esteve quase sempre perto do poder como aliada do governo. E a situação muda, justamente no momento em que o partido, se aprovado o impeachment, ocupará a presidência do Brasil. Uma oposição sem dúvida alguma vantajosa para a sigla, que mesmo antes de sua saída oficial, já começava o diálogo com membros da oposição, possíveis aliados para seu governo.

O rompimento do PMDB com o governo também abriu um campo de possíveis sobre as consequências e desdobramentos deste acontecimento. A mídia tentou prever os impactos imediatos desta saída para o governo e mais especificamente como isso afetaria o processo de impeachment da presidenta Dilma na Câmara. Além disso, havia dúvidas se todos os membros do partido acatariam a decisão e se outros partidos acompanhariam o PMDB e também se afastariam da base do governo.

Com o passar dos dias, o acontecimento foi suscitando outros desdobramentos. Apesar da proibição de que filiados ao PMDB ocupem cargos no governo, o partido continuou ocupando seis ministérios. O que mostra que a decisão do diretório não foi unânime e que o partido continua fragmentado, aliás, como sempre foi. Além disso, o próprio Temer permaneceu como vice-presidente, deixando a presidência do PMDB, que foi assumida pelo senador Romero Jucá.

Se a decisão do Diretório Nacional do Partido não durou mais do que quatro minutos, o pouco tempo não significa um consenso. Ao contrário, o partido está dividido. O acontecimento continua aberto e parece ainda longe de qualquer normalização. Haverá impeachment? Temer será presidente? (O discurso em que Temer se promove como “salvador nacional”, “unificador do país” já está pronto e foi divulgado, assim como sua carta, “acidentalmente”.) Mais partidos deixarão o governo, como o PP também já fez? Vejamos o que o acontecimento ainda nos reserva.

Fabíola Souza e Lívia Barroso
Doutorandas do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadoras do Gris

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de abril, definido em reunião do GrisLab.



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