Análise | Política

Pós-impeachment: e agora, José?!

O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff chegou ao fim no dia 31 de agosto, com seu afastamento definitivo. A análise faz uma radiografia do processo, desde sua fase germinal e dos discursos que o fizeram tomar forma, observando-o a partir do que Louis Queré chama de “duas vidas do acontecimento”. Ao fim de tudo, fica a questão: e agora?

dilma

Louis Quéré fala que um acontecimento teria “duas vidas”, provoca dois tipos de experiência: o acontecimento enquanto mudança que ocorre em nossas vidas e nos impacta; o acontecimento enquanto objeto de nossa consciência, de nosso discurso. Claro, eles são ligados, quase indissociáveis, mas a distinção ajuda a nossa compreensão.

Os discursos e razões a favor do impeachment (segunda vida) pronunciados desde a eleição de 2014, em vários espaços, foram incontáveis – a corja do PT, bando de ladrões e corruptos, Dilma cadela, Lula marginal. Na Câmara dos Deputados, em 17 de abril deste ano, o impeachment integrou discursos por Deus e pela família. No Senado, nos últimos dias, a razão se tornou crime de responsabilidade, pedaladas fiscais, crise econômica e “conjunto da obra”.

Se tentarmos ver, aquém e além dos discursos, no terreno do que seria “a primeira vida do acontecimento”, quais experiências sensíveis estavam afetando e sendo vivenciadas pela sociedade brasileira naquilo que depois se configurou como a destituição da presidenta eleita, Dilma Rousseff, vários fatores podem ser elencados. Vamos ver que, sim, a corrupção – mal de que não se livram nem as estrelas ricas e glamourosas, como Leonardo Di Caprio – nos afeta e nos revolta, e as denúncias da Lava Jato criaram um clima de indignação. Porém, a corrupção sozinha não teria força para instigar a ação; tanto assim que corruptos notórios não apenas orquestraram o processo de impeachment e votaram por ele com alarde e cara limpa, como agora compõem o governo instalado. Se o motor fosse (apenas) a corrupção, a limpeza iria mais longe, e teria começado muito antes.

Outras dimensões sensíveis da realidade também podem ser identificadas. A primeira delas é o Partido dos Trabalhadores no poder desde 2003, através da vitória em quatro eleições, bem como as políticas que veio implantando. Este partido e este “povo” do PT e/ou a ele associado (por exemplo, o “povo mal educado” que passou a frequentar aeroportos e praias do país, a ocupar vagas nas universidades), tornaram-se insuportáveis para os setores que até então dominaram o cenário político no Brasil e, através de um trabalho intenso de propaganda midiática, também para parte expressiva da população. Assim, a existência e as vitórias do PT foram realidades sensíveis, que afetaram a dinâmica de poder existente.

Também a crise econômica, que se tornou evidente sobretudo no último ano, através do desemprego, do aumento de preço foi vivida como realidade concreta, e sentida na pele pela classe média e classes populares. A construção de sentido em torno das razões e natureza da crise – e do quanto ela foi devedora da crise política – foi objeto de disputa. Venceu a construção discursiva que associou a crise ao Governo e à corrupção levada a cabo pelo PT.

Por último, traços do comportamento e do temperamento de Dilma Rousseff, aliado ao fato de ser mulher, atuaram também como elementos de afetação.

Essa conjugação de fatores agiu no sentido de criar a insatisfação e estimular um sentimento de ruptura com o quadro atual. Uma construção discursiva hegemônica na mídia conseguiu articular os fatores corrupção – desgoverno do PT – incompetência de uma mulher autoritária e rabugenta – crise econômica. Essa “segunda vida” colou e passou a ser a forma do acontecimento.

Vemos, nesse caso, um exemplo da força da comunicação – mas, também, a evidência de que discursos não atuam sozinhos, no vácuo; eles são construções simbólicas que se apoiam em elementos reais (na primeiridade e secundidade, usando os termos de Peirce). Tanto as ocorrências e os aspectos concretos da realidade suscitam e se transformam em discursos, como os discursos ganham força explicativa e têm o poder de atuar de volta na realidade quando conseguem estabelecer costuras plausíveis. Criar vilões e responsáveis por problemas que são sentidos, de fato, por uma sociedade é uma estratégia conhecida há muito tempo no cenário das disputas políticas.

Os discursos a favor do impeachment não circularam sozinhos; houve tentativas de contra-discurso, a mídia alternativa e a própria imprensa internacional evidenciaram a manobra política – também conhecida por golpe. Nem a sociedade brasileira nem qualquer dos parlamentares que votaram pelo impeachment em nome do crime de responsabilidade acreditaram nele. Mas ele serviu para o momento.

Essas fases ou “vidas” do acontecimento se renovam, se alternam e se sucedem enquanto o acontecimento continuar a acontecer.

No pós-impeachment, uma outra dimensão sensível desse acontecimento é sentida nas nossas vísceras, na forma de uma dor mais funda do que palavras como canalhas e golpistas conseguem expressar. Ou seja, uma das dimensões da “primeira vida” deste momento final do acontecimento é experimentada e sentida enquanto tristeza e desesperança para muitos de nós. Mas um outro tipo de realidade concreta desse acontecimento começa a se manifestar com mais brutalidade ainda: é a perda das conquistas, o retrocesso, cortando na carne das classes populares e dos grupos minoritários.

É com essa perplexidade e temor que perguntamos, com Carlos Drummond de Andrade:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
……………………..
……………………..

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Vera França
Professora Titular do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Coordenadora do Gris e do GrisPop

 
REFERÊNCIA:
QUÉRÉ, Louis. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista. In: FRANÇA, VERA; OLIVEIRA, Luciana (orgs). Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de setembro, definido em reunião do Grislab.



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