Análise | Política

Temer, o surreal

A análise trata de como foi possível que Michel Temer alcançasse o cargo de presidente da república e continuasse nele, a despeito das graves denúncias que pesam sobre o político. A presidência de Temer parece “sintonizada com a sociedade brasileira: fraca, fragmentada, sem esperança, à mercê de grandes interesses burocráticos e econômicos.”
Foto: Lula Marques/Agência PT

Foto: Lula Marques/Agência PT

O presidente da república é delatado e gravado, como relatamos em análise anterior. Ele é impopular como nenhum outro, mas foi poupado em julgamento do TSE (vergonhosamente, junto com Dilma Rousseff) e está sendo blindado por sua base aliada no Congresso de uma provável denúncia da PGR. Boquiabertos, vemos que Temer chegou ao cargo e permanece nele, fazendo declarações contraditórias em entrevistas, notas e pronunciamentos (parecendo seguir o roteiro do “tagarela” Collor, não o gerenciamento de crise do Lula “silencioso” no mensalão). Por outro lado, ele se recusou a responder à PF.

O jeito de fazer política de Temer sempre se caracterizou por voos suspeitos, agora desnudados. O “conspirador-mor” reclama de ser ele mesmo vítima de conspiração, o que é até razoável, enxergando interesses estadunidenses na arapuca armada para ele. Foram divulgados números positivos relativos aos indicadores econômicos do Brasil na semana do vazamento do áudio da Operação Patmos e os irmãos Batista, os corruptores, se instalaram muito facilmente nos Estados Unidos…

Deixando as teorias da conspiração, fundamentadas ou não, de lado, podemos nos perguntar: como foi possível que a presidência de Temer acontecesse e como é possível que ela continue acontecendo? Quando Michel assumiu que Eduardo Cunha deu andamento ao impeachment de Dilma por vingança pessoal, reconheceu no mínimo ter sido omisso em um processo facilmente anulável por “desvio de finalidade” (sem a ingenuidade de não notar os indícios de como o vice “decorativo” daquele momento atuou para alçar à presidência).

Antipetistas acusam os eleitores do PT de ter votado em Temer, enquanto militantes de esquerda acusam as manifestações “verde e amarelas” de “primeiro tirar a Dilma”, depois deixar tudo como está. Alguns ressaltam que o juiz Sérgio Moro está poupando o presidente (embora, ponderemos, Moro não tenha jurisdição sobre Temer), outros consideram que sua permanência o cargo ainda atende aos interesses do mercado. E não nos esqueçamos do “fator Jucá”: deputados e senadores têm interesse de “estancar a sangria” da Lava-Jato, o que tem sido feito, na medida do possível. Os fatos recentes ligados aos originários dessa novela fazem pensar que, ao contrário do que dizíamos em análise anterior, a presidência de Temer está sintonizada com a sociedade brasileira: fraca, fragmentada, sem esperança, à mercê de grandes interesses burocráticos e econômicos.

Numa visada pragmatista, porém, importam menos as várias causas da tragédia. A culpa de onde chegamos e para onde podemos ir é maior de alguns, menor de outros; entretanto, vale mais a pena observar as consequências, cabendo agora levantar um horizonte de possíveis. Se “Fora Temer” é um grito ouvido desde que o “mandato tampão” começou, é preciso levar em conta que a saída de Michel – se acontecer – sequer é o bastante. O sobrenome do presidente sugere um jogo de palavras: há razões para temer dias mais sombrios que podem estar a caminho. Com ou sem Temer no cargo que nunca deveria ter ocupado.

Gáudio Bassoli 
Mestre em Comunicação pelo PPGCOM-UFMG
Membro do GrisLab



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