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“Tráfico Ocupa UFMG”

Quando o acontecimento na mídia tem um gosto amargo

Na UFMG, acordamos com um barulho daqueles. Não por causa da questão das drogas no campus – com isto aprendemos a viver, conviver ou fechar os olhos há bastante tempo. Também não tanto por causa da presença do “outro” (“os de fora” na versão universitária) – um conceito (às vezes assustador) que se incorporou para nós na figura de jovens de periferia que passaram a frequentar a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) recentemente. O barulho foi outro. Acordamos com a manchete do Estado de Minas que intitula esta análise.

Ao conhecer o acontecimento que vem a público pela mídia, é amargo se deparar com o quão redutor pode ser o jornalismo. Por exemplo, quando um texto termina com uma fala descontextualizada (ou recontextualizada) de um ciclista, alertando para o perigo da festa “Na Tora” – perigo que, por frequentar, sei que não é nem de perto condizente com o que se deu a entender. Ou quando a redação de um jornal investiga (por preguiça ou por sobrecarga de trabalho?) apenas um prédio onde o tráfico talvez seja mais escancarado, sendo que todo o campus sofre com este problema. (Aliás, toda a sociedade sofre com o tráfico, certo? “A universidade não é lugar disto”, ok, mas existe “lugar disto”?)

Também é amargo pensar que a denúncia de assédio sexual, secundária na matéria, é tão grave quanto a do tráfico. É péssimo a ausência de cor da pele do usuário numa matéria em que a descrição “negro” salta aos olhos no caso dos dois traficantes, o gordo e o magro. Ou ficar imaginando de quem é o helicóptero de onde a droga consumida ali pode ter vindo, algo que a direção do jornal não vai se empenhar em descobrir.

Amargos são os comentários: dos que comparam a segurança de ontem com a de hoje – dois contextos tão diversos – e parecem sentir saudades de um regime que torturava crianças, dos que estigmatizam as ciências humanas, dos que acham que preto não devia entrar na universidade porque não merece, dos que destilam preconceitos.

Mas talvez o mais amargo no caso seja se reconhecer na mídia, se deparar com os próprios fracassos. Com o fracasso de uma sociedade que, entre gritos majoritários de “reprima” de um lado e outros mais abafados de “legalize” do outro, não se dá ao trabalho de entender, questionar, criticar e debater o mercado das drogas. De uma universidade que continua não favorecendo o acesso dos pobres, agora nem para que eles limpem os banheiros e façam a segurança: em tempos de crise como os de hoje, os trabalhadores terceirizados são os primeiros a serem mandados embora. Até na Fafich – que se pretende “não elitista” – não conseguimos lidar com “o outro”, (mesmo entre nós mesmos, não sabemos lidar uns com os outros), e podemos nos perguntar por que e pra que (re)produzir conhecimento, por que e pra que nossa filosofia e ciências humanas.

Mas se a manchete do Estado de Minas nos coloca diante de uma crise, é possível entender crises como oportunidades, entender que o fracasso dos atuais modelos é a chance para algo novo ou para valorizar os esforços heroicos e minoritários que já existem, que o barulho com o qual acordamos deve virar o silêncio de alguém que engole seco para depois dar lugar a uma voz forte e potente. Resta-nos a chance de mudar o sabor dos fatos. Independente de acontecer na mídia ou não…

Gáudio Bassoli
Mestrando do PPGCOM-UFMG
Jornalista e membro do Gris



Comentários

  1. Gilvan disse:

    Acredito que a discussão sobre esse fato envolve, pelo menos, três aspectos: o da ética, o da moral e o da lei. A ética trata da liberdade e, portanto, é possível dizer através dela que cada um tem o direito de fazer, ou não fazer, o que bem entender. A moral trata do certo e do errado e, portanto, podemos dizer que o que é certo para uns, pode não ser nada certo para outros. Geralmente, a voz que se impõe é a da maioria, ou como diria Durkheim, da coerção social (moral). Por último, temos a lei dizendo o que é permitido e o que é proibido. A comercialização e consumo de drogas ilícitas no Brasil é ilegal. Nos resta saber com qual dos argumentos pretendemos discutir a questão das drogas no campus da UFMF, na Fafich ou em qualquer outro lugar da sociedade. Para mim, os três são válidos, tem seus prós e contras, mas acredito que a questão da legalidade e da moral ainda se sobrepõe a da ética (de novo a coerção). Afinal, somos livres, mas aos olhos dos outros, nem tanto.
    São esses mesmos olhos, muitas vezes chamados de mídias, que olham para fatos sociais como esse e tentam misturá-los a preconceitos estabelecidos, como droga e tráfego são coisas de negros e de gente fora da universidade, como se assim fosse mais fácil de serem entendidos e aprovados pela sociedade.
    Bem, droga não é coisa que existe só nas universidades, nem só nas favelas, não é algo que só negros usam, nem só jornalistas em suas diversas redações e não é algo só para ricos e jovens, droga é uma questão a ser discutida por todos nós.

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