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A bola fora do exoesqueleto na Copa

Diário da Copa – O chute inicial da Copa no Brasil foi dado por um paraplégico que utilizou um exoesqueleto controlado por impulsos cerebrais. O grande feito, no entanto, não passou de um flash ocorrido à beira do gramado, durante a cerimônia de abertura. A invisibilidade, no entanto, se tornou notícia. Algo aconteceu…

A FIFA, o governo e a mídia anunciavam com antecedência aquela que seria a maior atração da Copa do Mundo: um chute inicial dado por um paraplégico utilizando um exoesqueleto controlado por impulsos cerebrais, criado pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis. Criou-se expectativa: era uma vitrine mundial para uma avanço científico capitaneado por um brasileiro, a chance de mostrar que não somos apenas o país do futebol, samba e carnaval, e que também somos pioneiros nos avanços tecnológicos.

Esperava-se que o grande chute fosse dado no apito inicial, no centro do campo. Mas não. Ele foi parte de uma tímida cerimônia de abertura no dia 12 de junho. E como parte de uma festa maior, teve em tela o mesmo tempo proporcional que é dado à importância do fazer científico no Brasil: cerca de 3 segundos, em que mal vimos o chute, tão somente a bola se movendo. Pesa contra o aparecimento de Juliano Pinto, em seu momento de glória, a chegada do ônibus da seleção brasileira para o jogo de abertura.

O esperado não aconteceu. Contudo, algo aconteceu. Se o fato tão esperado foi negligenciado pelas câmeras, não foi pelas redes sociais. Imediatamente após a imagem da televisão, proliferaram mensagens pelo Facebook e Twitter carregadas de indignação. Uma busca rápida no Google nos dá milhares de resultados de portais de notícia, blogs, perfis pessoais e afins repercutindo a ausência do chute. Numa abertura de pouco impacto, o exoesqueleto em sua invisibilidade acabou se tornando um de seus aspectos mais visíveis; este quase “não-acontecimento” acaba por acontecer de fato no discurso de indignação.

O acontecimento fez e ainda faz falar: a Copa do Mundo no Brasil tem gerado muito material humorístico, e o exoesqueleto se tornou um deles. Após a segunda partida do Brasil, o empate em 0x0 com a seleção mexicana, o site de humor esportivo Olé do Brasil sugeriu que Fred, o camisa 9 brasileiro, entrasse em campo utilizando um exoesqueleto para conseguir enfim chutar a bola ao gol. A piada foi espalhada pelas redes sociais rapidamente.

A reverberação não se dá apenas pelo humor, mas também pela política. Miguel Nicolelis é um petista assumido. Numa época de ataques constantes contra o PT, em que toda mazela do país é “culpa do PT”, a mídia oposicionista tentou por diversas vezes desqualificar a pesquisa de Nicolelis, refletindo na ciência o embate político que será travado em outubro de 2014. Destacam-se nesse ponto as trocas de tuítes entre Nicolelis e dois oposicionistas assumidos, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo (Veja), além de Roger (vocalista do Ultraje a Rigor).

Não apenas na política partidária mas também na científica há controvérsias. A não visibilidade do acontecimento pela televisão foi celebrada pela ala da comunidade científica que contesta os achados de Nicolelis, do ponto de vista técnico (há duvidas se o método utilizado por ele dá independência ao paraplégico ou se é somente a máquina fazendo o sujeito se mexer) e político-científico, com discussões sobre fraudes, plágios, a invisibilidade da participação de outros cientistas brasileiros no projeto e o ineditismo da proposta.

O acontecimento fala, reverbera, deixa-se fluir nas discussões dos sujeitos ordinários, nas suas inserções bem humoradas em outros acontecimentos, nas discussões políticas e técnicas da ciência. O que ainda revelará o exoesqueleto de Miguel Nicolelis?

Foto: Gizmodo Brasil

Leandro Lima
Mestre em Comunicação Social e integrante do Gris/UFMG



Comentários

  1. Leandro disse:

    Realmente Nisio. É possível que seja um reflexo tbm da invisibilidade dessa minoria.. é um viés a acrescentar na análise. Me fez lembrar tbm do debate em torno dos ingressos de cadeirantes e dos “milagres” dos q se levantavam durante os jogos. A desinformação ajuda a propagar a falsa ideia de que todo cadeirante é paraplégico e isso, aliado as imagens e anuncios da venda de combos ‘ingresso + cadeira de rodas”deram muita discussão!

  2. Nísio Teixeira disse:

    Talvez, ainda, a omissão revela e simboliza, em si, a própria invisibilidade daqueles com mobilidade reduzida dentro e fora da mídia…

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