Análise | Violência

A crise na segurança pública e o Espírito Santo que não queremos ver

No último mês de fevereiro, o Espírito Santo viveu uma grave crise na segurança. No entanto, o movimento reivindicatório das esposas de policiais, que ‘’impediram’’ os maridos de saírem para as ruas, revelou que essa área nunca esteve de fato bem resolvida no contexto capixaba. A paralisação dos militares, assinada pelos familiares, esconde um cenário em que a segurança pública ainda é vista como sinônimo de encarceramento, camuflando a falta de políticas que atinjam uma parcela significativa – mas longe das preocupações governamentais – da população.
Foto: Tânia Rego, Agência Brasil

Foto: Tânia Rego, Agência Brasil

Ruas desertas. Comércio fechado. Saques. Tiroteios à luz do dia. Corpos no chão esperando por um Instituto Médico Legal sobrecarregado. Medo. Incertezas. Questionamentos.

O quadro relatado acima foi vivido pelos moradores do Espírito Santo durante uma semana inteira no mês de fevereiro. Esposas de policiais encabeçaram um movimento reivindicatório, acampando em frente a batalhões e companhias e ‘‘impedindo’’ os militares de saírem para trabalhar – fato que deixou as cidades privadas do policiamento ostensivo.

O simples alerta de que não havia vigilância estatal foi o suficiente para dar sinal verde à ação de criminosos. Porém, muito mais do que destacar o pânico que tomou conta da população ou avaliar a pertinência da iniciativa das esposas, o acontecimento nos faz ir além e enveredar por outras camadas de sentido.

O fato que marcou o começo do ano capixaba trouxe à tona a lógica segregadora que impera em nosso modelo urbano de sociedade. O que a população das áreas nobres, principalmente da Grande Vitória, presenciou é o que a grande parte dos moradores de periferias da mesma região enfrenta todos os dias: abandono estatal, insegurança, toques de recolher e medo. Muito medo.

Não foi, portanto, aleatório o quadro visto nos dias imediatamente seguintes ao anúncio de que o movimento havia acabado e de que os PMs retornavam para as ruas. Enquanto ecoava-se uma mensagem de que tudo estava  ‘‘normal’’, na perifeira de Cariacica os moradores ainda eram obrigados a conviver com tiroteios na porta de casa. Enquanto o noticiário mostrava imagens de cidadãos indo novamente trabalhar e os supermercados finalmente funcionando, coletivos ainda não circulavam por Feu Rosa, local historicamente marcado por altos índices de infrações à lei. Enquanto tudo estava ‘‘normal’’  sob a ótica do noticiário, naquele bairro da cidade de Serra, os moradores continuavam se recolhendo às 17h por ordem do tráfico. Para o governo e para a maior parte da imprensa, tudo estava bem. Afinal, a tranquilidade aparente havia retornado para os capixabas que de fato importam às politicas governamentais, a despeito de uma outra parcela da população que fingimos não existir.

No mesmo sentido, podemos refletir sobre o impressionante saldo de mortes pós-movimento. Cerca de 140 capixabas perderam suas vidas no curto espaço de tempo da paralisação – muitos deles por rivalidades no tráfico.

Mas os mortos não eram 140 capixabas da Praia da Costa, bairro nobre da cidade de Vila Velha. Se assim o fosse, o espaço dado a essas histórias no noticiário seria outro. Talvez, com os primeiros registros de assassinatos de moradores dos condomínios, governo e movimento teriam sido mais rápidos nas negociações e não deixariam o pânico se arrastar por uma semana. Não permitiriam que o número de vidas ceifadas chegasse sequer a 20 ou a 50, quiçá a 100.

Mas a forma com a qual o Espírito Santo lidou com aquela semana reflete muito bem como temos tratado a própria questão da segurança pública. O estado que esteve até 2012 na lista dos cinco com maior número de homicídios no Brasil, também é líder (junto com Alagoas) na aceleração do encarceramento de jovens. A maioria negros. Pobres. Um perfil muito semelhante à grande parte dos que morreram naqueles dias de medo.

Durante a paralisação, era comum ouvir no Espírito Santo que 2017 começara mal, uma mera prorrogação de 2016 – o ano que todos queriam ver terminado. Infelizmente, enquanto continuarmos tratando segurança pública como sinônimo de encarceramento, a normalização de qualquer cenário estará longe de acontecer. Enquanto permanecermos coniventes com o genocídio de jovens e negros, novas semanas de crise poderão acontecer. Enquanto não pensarmos em políticas que priorizem uma importante parcela dos nossos conterrâneos, o tempo de más notícias infelizmente estará longe de se limitar apenas a uma fatídica semana, a um fatídico ano,  e continuaremos acreditando em uma pacificação que, infelizmente, ainda está muito longe de se concretizar.

Raquel Dornelas
Mestre em Comunicação pelo PPGCOM-UFMG
Professora da Universidade de Vila Velha/ES



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