Análise | Justiça

A UFMG e o acontecimento que nos afeta

Dirigentes da Universidade Federal de Minas Gerais são levados coercitivamente a depor a propósito de possíveis irregularidades na construção do Memorial da Anistia – antes de qualquer forma de pedidos de esclarecimento. A operação repete a intervenção de mesma natureza que levou ao suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, em setembro deste ano. Condução coercitiva, ataque às Universidades Federais são ações que se repetem no cenário brasileiro contemporâneo, sinais sombrios do autoritarismo judicial-policial que pesa sobre nós.

Foto: Lucca Mezzacappa/ Jornalistas Livres.

“A UFMG está pronta. Ela está pronta, como sempre esteve e sempre estará, a prestar qualquer esclarecimento à sociedade, como é seu dever. Ela está pronta, como sempre esteve e sempre estará, a cooperar com as autoridades. Ela está pronta, como sempre esteve e sempre estará, a defender as instituições federais de ensino contra qualquer ataque.” Assim se manifesta o Conselho Universitário da UFMG em resposta à condução coercitiva de alguns de seus dirigentes e ex-dirigentes – entre estes, o atual reitor e a vice-reitora – em ação da Polícia Federal realizada no dia seis de dezembro. Segundo a PF, a ação visa a investigar supostas irregularidades na construção do Memorial da Anistia pela UFMG.

Neste laboratório, gostaríamos de atentar, ainda que brevemente, para dois eixos que orientam nossas análises de acontecimento: seu poder de afetação e seu poder hermenêutico.

Em primeiro lugar, tal acontecimento muito nos afeta. Claro, ele afeta diretamente aqueles/as que foram coercitivamente levados/as a depor na sede da PF – e o trágico desfecho no caso do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (analisado neste GrisLab), após sofrer uma operação semelhante, aponta o quão profundo e irreversível pode ser o dano moral e emocional provocado pelo sofrimento por este tipo de truculência. Mas ele afeta também toda a comunidade acadêmica (professores/as, funcionários/as, alunos/as). E, de forma mais ampla, afeta toda a sociedade brasileira que acompanhou a espetacularizaçõa midiática da ocorrência. É possível perceber essa dimensão de passibilidade do acontecimento – e as consequentes ações que este convoca – a partir das múltiplas notas de solidariedade à UFMG e de repúdio à operação nomeada de Esperança Equilibrista. Professores/as, intelectuais, políticos, associações científicas, artistas em todo o país e no exterior se posicionaram contra a violência e a arbitrariedade da ação policial que atingiu a universidade e seus dirigentes. O compositor João Bosco – parceiro de Aldir Blanc na canção O bêbado e o equilibrista que inspirou a nomeação da operação – destacou sua indignação frente ao acontecimento: “Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.”.

Em segundo lugar, tal acontecimento é revelador de sentidos sobre a sociedade em que vivemos. Entre outras facetas de seu poder hermenêutico, podemos destacar o “avanço do autoritarismo judicial-policial-midiático”, que vem criando um “Estado autoritário, inimigo da liberdade de pensamento”. Além disso, demonstra o reiterado ataque às universidades públicas, com o claro objetivo de atingir sua imagem e iniciar o solapamento das instituições públicas de ensino superior.

Se, por um lado, o acontecimento revela nossa fraqueza frente a forças autoritárias, ele também aponta para a força que pode emergir dele: o abraço simbólico que a comunidade acadêmica deu na reitoria da UFMG, bem como as mobilizações que estão sendo planejadas, como o Ato Nacional em Defesa do Memorial da Anistia Política, ocorrido no dia 10, são exemplos disso. Da indignação e da perplexidade frente a esse acontecimento, surgem vozes que fazem coro às palavras de João de Bosco em uma “defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar”.

Vera França
Coordenadora do GrisLab e Professora Titular do PPGCOM-UFMG

Paula Simões
Coordenadora do GrisLab e Professora do PPGCOM-UFMG



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