Análise | Infância, juventude, 3ª idade Violência e Crimes

Acolhendo vidas? Violência e abandono no asilo e no Brasil

Privação de alimentos, banhos gelados e agressões eram rotina para quase 50 moradores de uma casa de idosos de Santa Luzia: é assim que nossos idosos vão viver?
Crédito: Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS

Cinco pessoas estão sendo investigadas pela polícia civil após denúncia de maus tratos na Casa dos Idosos Acolhendo Vidas, em Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Além da proprietária do estabelecimento, também foram presos seu marido, duas filhas e um dos cuidadores, todos acusados de agressão e tortura.

O local, que não tinha alvará de funcionamento, abrigava quase 50 idosos. Apesar de mensalidades que chegavam a 1.500 reais, o asilo apresentava condições precárias, sendo os moradores submetidos a diferentes formas de tortura como privação de água e de alimentos por 24 horas, banhos gelados, além de agressões físicas e psicológicas por parte dos cuidadores.

Após ação policial, 17 idosos foram encaminhados para o hospital com ferimentos, pneumonia e sintomas de desidratação e desnutrição. A polícia também investiga a morte recente de alguns moradores e se a proprietária estava fazendo uso indevido dos recursos financeiros dos idosos.

A violência vivida no asilo não só comove e indigna, como aponta para a negligência das famílias, que não identificaram a situação, apesar de alguns idosos apresentarem indícios físicos dos maus tratos. Também indica e ineficiência da fiscalização do Estado, que permitiu o funcionamento do asilo, mesmo após denúncias anteriores e descumprimento de prazos. 

A falta de acompanhamento dos familiares é uma situação comum em muitos asilos. No caso de Santa Luzia, favoreceu os maus tratos, com os idosos não tendo a quem recorrer. Mesmo após as denúncias, a polícia teve dificuldade de encontrar alguns familiares das vítimas, que não apareceram no asilo ou hospital para buscá-las.

Essa falta de amparo, que começa na família, revela também o despreparo de nossa sociedade para cuidar de seus idosos. Falta não só uma fiscalização mais rigorosa dos asilos públicos e privados e um combate efetivo da clandestinidade, como também maior investimento dos governos para a criação de espaços de cuidado gratuitos e de qualidade, de forma a beneficiar as pessoas mais pobres, que não podem contar com o auxílio dos familiares.

No Brasil, como em outros lugares, valoriza-se a força e capacidade produtiva em detrimento de quem tem limitações para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho. Um exemplo é projeto de Reforma da Previdência, em andamento no Congresso (que será tema de outra análise do GrisLab), que está desrespeitando e sacrificando os aposentados, principalmente os mais pobres. Logo eles, cujas aposentadorias, muitas vezes, mal conseguem cobrir os gastos com remédios e sustento da casa. 

Segundo o IBGE, até 2042, a população acima de 60 anos, que hoje representa 13,5% dos brasileiros, deve chegar a 24,5%. Para garantir uma boa qualidade de vida para essa faixa etária, é preciso uma mudança de mentalidade dos governos e sociedade. Investir em melhorias na saúde, mobilidade urbana, oferecer opções de lazer e garantir as condições financeiras necessárias são medidas básicas e urgentes, que não podem continuar negligenciadas.

Fabíola Souza, doutora em Comunicação Social pela UFMG e pesquisadora do GRIS



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