Análise | Questões indígenas

Ataque aos Gamela no Maranhão: heterotopias daquilo que está sempre acontecendo

Partindo do ataque ao coletivo dos Gamela no Povoado de Bahias-MA que feriu 13 pessoas, Luciana Oliveira constrói uma análise da geopolítica desse acontecimento, revelando fatos e forças históricas que conectam a violência sofrida pelos Gamela e outros povos indígenas às marcas sangrentas do processo de colonização do território brasileiro e das constantes e atuais perdas de direitos e territórios sofridas por estes povos.
Foto: Ana Mendes/CIMI

Foto: Ana Mendes/CIMI

Os Gamela são um coletivo de pessoas indígenas que constrói sua forma de vida cotidianamente, bem próximos a Viana, no Povoado de Bahias, e bem distante de Brasília (centro das decisões políticas do Brasil) e de Belo Horizonte (cidade onde esse texto foi escrito e publicado). A condição étnica dos Gamela, hoje estimados em 2.000 pessoas, é posta em cheque por estigmas: de que não são índios puros, de que já não falam mais sua língua, de que são mais negros do que indígenas ou pela simples afirmação de que foram extintos. Tais estigmas alimentam a insegurança jurídica em relação a seu território de 14.000 hectares (do qual ocupam 552 hectares), formalmente demarcado e legalizado pela Coroa Portuguesa desde 1759. No dia 30/04/2017, numa ação direta de retomada de parte de seu território originário, foram brutalmente atacados por pistoleiros armados contratados por latifundiários que feriram 10 pessoas e deceparam as mãos do gamela Adelino Ribeiro.

Viana é uma cidade da microrregião da Baixada Maranhense (MA), região norte do Brasil. Antes de ser cidade era terra dos Gamela, nome que os colonizadores atribuíram aos acroás e gueguês. A história da cidade é contada a partir de um ponto de vista eurocêntrico, em geral marcando a “desbravada” redentora dos portugueses, declarados proprietários, bem como dos operadores de seus interesses: missionários, funcionários de estado, exploradores e aventureiros. Marcos dessa ocupação são os monumentos dito “históricos” de Viana: casarios em estilo colonial, igrejas, edificações da Missão Jesuítica de Nossa Senhora da Conceição do Maracu e as fazendas dos colonos construídas a partir do século XVII, utilizando trabalho e saberes de indígenas e de matriz africana, em geral, apagados nas histórias oficiais, sob o jugo da escravidão.

Brasília é uma cidade construída no planalto central brasileiro para ser a capital de UM país que buscou se afirmar como UMA nação. Invenção geopolítica da modernidade, tanto a cidade quanto os ideários monológicos, é o centro de decisões políticas que afetam milhões de pessoas, incluindo-se aproximadamente 870.000 indígenas que resistem ao maior genocídio conhecido pela humanidade: este que aconteceu e acontece na América desde o século XV. É em Brasília que parlamentares — em geral, homens, brancos, descendentes de europeus — têm trabalhado na aprovação da MP 759/2016, assim como das PEC 215 e 237 que significam a legalização de áreas griladas, recuos e impedimentos aos processos demarcatórios e o consequente aprofundamento da concentração de terras no país. Um desmanche de direitos conquistados pelos indígenas na Constituição Federal de 1988.

Belo Horizonte é a cidade em que vivemos nós que escrevemos para este Grislab. Estamos longe geograficamente dos Gamela, mas também próximos, pois o que acontece lá, acontece aqui no estado de Minas Gerais com caxixós, xacriabás, krenaks e maxacalis. Estamos próximos porque estamos enredados numa teia de decisões políticas que põe em dissenso projetos nacionais, ideais sobre desenvolvimento e progresso, formas de vida e mundos distintos. Um acontecimento que ganha visibilidade midiática é, antes de mais, um enredo geopolítico que trança e, por vezes torce, temporalidades e espacialidades de junção não evidente. A força da formação da opinião está na capacidade de remontar essas redes apontando tensionamentos e formas de ativação de solidariedades possíveis.

É assim que concebemos a geopolítica desse crime cometido contra os Gamela.

Luciana Oliveira
Professora do PPGCOM-UFMG



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