Análise | Crimes

Crimes em família

Primeiro veio o videogame. Um garoto branco de 13 anos, matou os pais policiais, avó e tia, suicidou-se em seguida. Gostava de jogar “Assassins Creed”, onde se transformava em matador de aluguel. Início de agosto, dia 6, São Paulo, capital.

Depois chegou o desemprego. Um jornal crava um mês após: “Polícia diz que cabeleireiro envenenou mulher e dois filhos, de 2 e 7 anos, por problemas financeiros”. Em seguida o homem, há algum tempo sem trabalho, teria se matado. Cotia, região metropolitana de São Paulo.

Enquanto apuravam-se esses episódios, com laudos, investigações, especulações, duas adolescentes são encontradas mortas em casa, no Butantã, bairro paulistano, e a mãe, uma corretora que tentou se matar, aparece como suspeita pelo envenenamento. A cobertura destaca bilhete na geladeira com programação de tarefas para as adolescentes: “mãe era rigorosa”, contam os jornais. A mulher também teria matado o cachorro da família.

Nem mais uma semana de investigações policiais – e jornalísticas – e uma mãe e quatro filhos (7, 11, 12 e 16 anos) são encontrados mortos em outro município da região metropolitana de São Paulo. Sem marcas de violência, hipótese de envenenamento.

Os episódios são apresentados todos com um misto de estupor e mistério. Quem fez isto? Porque eles foram mortos?  Cada história começa com suas dúvidas, indagações, pedindo um “sentido”, uma explicação.  Parecem se desenhar como textos voltados para o mistério, para imensas zonas de sombra que recobrem o evento e obscurecem a compreensão de jornalistas, telespectadores, autoridades. O mote “vamos apurar (vamos especular?)” move a conversação na mídia, com a mídia, fora dela.

Sabe-se que tais casos jornalísticos – pois afinal ainda é disso que se tratam nesse momento inicial – são eventos sociais reunidos  em torno de uma aparente comoção provocada pela identificação de uma série coincidências, traços dramáticos aparentemente comuns. A mídia informativa faz com que tais histórias desdobrem-se por vários dias: altera sua forma de atuação, modifica suas rotinas de produção, logo, sugere maior atenção às audiências, indica que também para os públicos a normalidade da vida cotidiana está “posta em questão”. São apresentados como dramas compartilhados. O destaque, de imediato, sempre nos faz lembrar os muitos episódios com alguma similitude que não mereceram essa atenção concentrada…

Mas tratados como caso parecem então ter os traços comuns desses fenômenos: ganham os contornos de uma história peculiar, “o caso Pesseghini”, o caso da família de Cotia etc; aparentam elevar-se em sua singularidade de certo contínuo social; desenvolvem-se em relatos particulares, alimentando uma trama que enreda crescentemente novas situações, agentes, fatos etc.; enredam produtores e público em uma espiral de conjecturas e suposições sobre o que de fato ocorreu, sobre a natureza do episódio. As matérias se espalham: mãe e filho encontrados mortos em Salvador, pai e filho morrem juntos… etc.

Se pensarmos esses episódios a partir da idéia de que tais ocorrências estão tendo grande repercussão, e juntarmos a isto uma percepção recorrente de que eles são agrupados e se fazem presentes por uma estratégia de repetição/re-aparição incessante em uma mídia que facilmente rotulamos de sensacionalista (um “excesso” retórico; a conexão das histórias como se dissessem de um conjunto etc.), as mortes sucessivas de famílias em São Paulo se veriam alçadas à condição de acontecimentos comoventes.

Mas é curioso ver como cada episódio, que parece emergir já entrelaçado em um caso que o antecede, parece resistir e reivindicar um veio narrativo próprio. Para repetir e ver recorrência muitas das narrativas que se instauram a partir e em torno dos casos elegem como roteiro a ideia de que os valores da instituição social família estão em crise. Mãe, filha, filho, pai, família são lugares ocupados por figurantes que reencenam um drama recorrente. “Nos últimos dois meses, a cidade de São Paulo protagonizou mortes em quatro famílias, causadas, supostamente, por algum de seus membros, sendo três delas por envenenamento.”[1] Os especialistas convocados ajustam e fazem confluir explicações para um adoecimento dessa instituição. Oferecem um laudo “psico-social” para a “violência na família”: estamos surtando, a vida cotidiana vai se tornando insuportável, perdemos espaços de convivência, o estresse a todos nos acomete, falta qualidade de vida nos centros urbanos.

Já pelas caixas de comentários, pelos comentários “desencaixados” na vida que segue no ônibus, na escola, na padaria, as suposições resistem: “Virou moda família toda morrer, coisa de paulista msm”, diz um internauta na Folha de S.Paulo. A foto que acompanha matérias no Portal G1 e nos telejornais da TV Globo mostra pichação na casa onde irmãs adolescentes morreram, na zona Oeste de São Paulo: “Não existe amor em SP”. Seguem pela internet e em frente à casa da “tragédia dos Pesseghini” manifestações que “reclamam sua inocência e pedem a verdade”.

Entre os “mistérios”, o diagnóstico de que “o mundo está perdido” e a identificação das causas, a comoção não é mais que reivindicação.  Não se percebe assombro, estranheza ante ocorrências algo enigmáticas, que parecem tocar sim na família, mas naquela vista como um espaço privilegiado para a felicidade pessoal se realizar, horizonte último da imaginação de felicidade. Família que, em sua dimensão histórica, existe em tensão, é lugar também de muito sofrimento. A família enfim é notícia, o sofrimento que existe nela, não.

 


[1] Aumento de crimes em família pode ser fenômeno social, dizem especialistas. Confira aqui

 Foto: Reprodução/Facebook

Elton Antunes
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e coordenador do Gris/UFMG

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Comentário

Elton Antunes traz um esclarecimento ao “estupor e mistério” provocado no público brasileiro consumidor de informações. As “zonas de sombra” têm tomado conta da mídia nacional com assombrosos acontecimentos que perturbam a família. Jornalistas e especialistas chamados a se manifestar parecem ignorar que a felicidade do “lar doce lar” poderia ser objeto de análises mais aprofundadas, encarando os perturbadores fatos como indícios de que o sofrimento familiar pode ser o outro lado de uma mesma moeda.

Em análises a prosseguir vale trazer à lembrança três histórias de nossos mitos fundadores: o patriarca Abrahão, em holocausto, quase mata o filho Isaac; a sagrada-família cristã se desfaz no Calvário onde a mater dolorosa assiste à crucificação do filho; e, no distante Egito, Tífon mata e esquarteja o irmão Osíris. As tensões existentes em famílias na cultura ocidental vêm à tona nessas histórias tão recontadas e ritualizadas.  As famílias ali são notícia, e o sofrimento que nelas existem, também.

Paulo Bernardo Vaz
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e coordenador do Gris/UFMG



Comentários

  1. Ricardo Duarte disse:

    Nosso humanismo clássico tente a sentimentalizar e moralizar em forma de opinião os sentidos ao redor dos conteúdos midiáticos que causam esse estado de consciência ou sensibilidade apenas parcial ou insensibilidade – que nos paralisa. Ficamos indignados, reivindicamos justiça, clamamos pela família. Mas nosso humanismo progressista tende a observar estas naturalizações inscritas na História – como bem mostrou Paulo B. O mistério provocado pelo estupor – não sabemos o que está acontecendo e o porquê ou simplesmente nem ligamos mais para os sucessivos crimes em família – se inscreve na história não-oficial contemporânea midiatizada: a história das pessoas na experiência de seu cotidiano de bairro é umedecida pela narrativa da violência. Em algumas coletividades, falta um capital de conhecimentos para entender com mais amplitude o que se passa na mídia. No entanto, acho que o mistério está por ali pelas fissuras da experiência da juventude: os conflitos de valores entre as gerações (pais/filhos); nas celebridades (ou tipos recorrentes que pertencem a um investimento narrativo da mídia) que se constituem como interlocutoras – mais do que os pais e parentes; nas distinções e reconhecimentos pelo consumo (roupa de marca, celulares, etc).

  2. Bruno Martins disse:

    Além do videogame e da singularidade de cada história, certamente com complexidades diversas, gostaria de apontar para os mistérios que entrelaçam as próprias narrativas dos crimes, especialmente em torno da possibilidade de se tornarem gatilhos disparadores de comportamentos violentos. Em uma das matérias jornalísticas que tratava de uma das “tragédias”, um “especialista” (no caso um psiquiatra forense) aventou a possibilidade de haver “contaminação” entre as histórias familiares, ou seja, assistir ou ler uma narrativa de suicídio/homicídio “em família” tem uma potencialidade virulenta em disseminar ações similares. Quando da publicação de “Os sofrimentos do Jovem Werther” (1774), a imprensa (o que ao menos nestes casos implicava na experiência de leitura) foi acusada de causar “ondas de suicídio” na velha Europa. De fato um texto, mesmo que se trate de um texto ou personagem ficcional, ao menos como possibilidade, pode ser recebido de forma “pragmática” ou “quase-pragmática”, ou seja, pode influenciar ações e comportamentos em seus leitores ou espectadores. Entretanto o argumento de “contaminação” funciona como um silenciador perpétuo da questão do suicídio (ainda mais em família) nas narrativas midiáticas. Será que evitar um tema é a melhor (ou única) solução que pôde ser encontrada? Ao deliberadamente criar esta “zona de sombra” estaria a mídia contribuindo para uma perspectiva crítica e auto-reflexiva?

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