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David Luiz: valente, charmoso, bom moço

Diário da Copa:  numa seleção brasileira majoritariamente formada por jogadores de sucesso fora do país, David Luiz aparece como o herói da pátria de chuteiras na Copa de 2014.  A pesquisadora Vera França traz uma interessante análise sobre o atleta que com crisma e garra foi alçado ao posto de ídolo pelos brasileiros que acompanharam a Copa do Mundo

A trágica partida com a Alemanha tirou momentaneamente de cena nossos heróis nacionais – mas não sua importância. É o futebol que precisa de heróis, ou somos nós, brasileiros? Ao longo da Copa e dos jogos, o tempo todo um narrador resgata um salvador da pátria, um feito sobre-humano. Nas redes sociais, ídolos são cultuados. Estrelas povoam o mundo do futebol, e o Brasil é um expert em cria-las e cultiva-las. A que vêm e a que servem tais figuras?

Os ídolos do futebol, evidentemente, se consagram em campo, a partir de seu desempenho como jogador. Mas é preciso mais para atingir os corações. É claro que um jovem com o talento de Neymar, candidato a figurar entre os melhores do mundo, desponta e alcança popularidade. Além dos gramados, ele passa a ser visto em comerciais, confere importância àquilo que toca, ganha espaço na cena pública, é seguido em sua vida privada, copiado em seu penteado. Torna-se uma celebridade, e passa a se comportar como tal.

Mas a passagem a herói implica outros ingredientes além de alta performance; é preciso um ato de coragem, é preciso enfrentar e vencer um perigo, e se doar pelos outros. Sobretudo, é necessário portar alguns valores. E nesta Copa, o candidato a herói não foi tanto Neymar, mas David Luiz. Jogando bem, espírito de equipe, alto astral, visual atraente, jeitinho de bom moço, ele provocou consenso junto a vários tipos de público. Foi flagrado e retratado em vários momentos de sua atuação – demonstrando seu empenho, sua garra, sua energia.

Dentre as várias cenas protagonizadas por ele, uma particularmente foi marcante, e inclusive eleita por vários comentadores como “o fato grandioso da Copa”. Trata-se do abraço e das palavras de conforto ao craque da seleção colombiana, James Rodriguez, após o jogo Brasil – Colômbia. Em lugar de se entregar à euforia da vitória, David Luiz se volta para o outro – no caso, o ídolo derrotado.

Por que esta cena foi tão apreciada, comoveu tanto? Num esporte viril, de alta competitividade, por que valorizar assim uma atitude de delicadeza e cuidado – mais identificada, inclusive, com o feminino?  É do contraste que podemos extrair o interesse desta passagem, que nos fala da aproximação e apreço a valores opostos. Nossa sociedade e nossa ação no mundo é movida por competências, mas também e antes de tudo por valores; aquilo que apreciamos (inclusive o esporte) ressalta os valores que estão em alta. O futebol – nosso esporte nacional – é palco de muitos valores, que seria extenso aqui resgatar (e vem sendo explorado por vários pesquisadores brasileiros que se dedicam à temática).

A competição, a busca da vitória é apenas um deles – que, por sinal, não é uma exclusividade do futebol. Mas é aqui que ele se parece com o mundo (capitalista) em que vivemos, em que cada um deve se superar (e superar seu vizinho). Esta competição torna o mundo muito difícil – e nossa tarefa muito árdua.

É aí que outros valores se sobressaem. Talvez não tanto os que exercitamos, mas aqueles dos quais necessitamos. Entre eles, a solidariedade, o apoio, a compaixão. Um herói humilde, que não tripudia, mas fortalece… É tudo o que precisamos!

Pena que nossa trajetória foi curta. Nosso herói bonzinho não pôde nos assegurar a vitória. Sabemos que ele tentou. E por isto, e não por acaso, suas lágrimas foram as mais focalizadas pela mídia. David Luiz chorando, pedindo desculpas. Não foi capaz de fazer seu povo feliz. Não importa, David, sabemos que você tentou…

Como é bom ter heróis humanos sensíveis! Agora somos nós que queremos ampara-lo, e dizer-lhe que sabemos que ele se empenhou. E se estamos longe de mudar o mundo, podemos nos consolar pensando que, pelo menos, alguns comportamentos nos indicam que nem tudo está perdido. Não vamos olhar, David, por quanto você foi vendido para o Paris Saint Germain, e quanto será seu salário. Só importa o quanto você é bom moço, é humano, é sensível. Pena, David, que você é só um modelo, uma ilusão que torna mais real o mundo de nossos sonhos!

Foto da home: Marcelo Casal Jr. / Agência Brasil

 Vera V. França
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e coordenadora do Gris/UFMG



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