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Dois acontecimentos e o papel da escola em nossa sociedade

A agressão a uma professora em Santa Catarina e o projeto pedagógico do Colégio Santo Agostinho (que tematiza a identidade e a igualdade de gênero) são relacionados a fim de refletir sobre a escola e a educação no Brasil.

Foto: Facebook/Reprodução

Dois acontecimentos recentes trouxeram à tona discussões acerca do papel e do lugar ocupado pelo/a professor/a e pela escola em nossa sociedade.

O primeiro aconteceu em Indaial, Santa Catarina, no dia 21 de agosto: a professora Marcia Friggi denunciou a agressão física que sofrera de um aluno de 15 anos. Após a expulsão do menino de sala de aula por mau comportamento, ele rebateu com socos que a feriram gravemente no rosto. Em seu texto nas redes sociais, ela afirmou: “Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou. A vida”.1

A violência escolar vivida por Marcia Friggi pode ser situada como uma das faces da violência urbana que nos acomete – como bem discute Luiz Ruffato.2 Para o escritor, “a violência na escola é apenas uma extensão da violência fora dela – e a violência fora dela é a expressão de um país socialmente injusto”.

O outro acontecimento diz respeito ao caso do Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte, o qual recebeu uma notificação extrajudicial,3 datada de 3 de julho e assinada por um grupo de responsáveis, que manifestam sua insatisfação com o tratamento de questões ligadas à “identidade e igualdade de gênero […] sob o argumento de que apenas a família tem essa prerrogativa”.4

Em carta, alunos/as responderam questionando: “Com o que os senhores estão realmente preocupados? Com a vontade de manter seus filhos isolados de tudo aquilo que diverge do que lhes foi ensinado ou com o fornecimento de ensinamentos extremamente relacionados à convivência em comunidade e respeito ao diferente?”5 Também em resposta à notificação, o colégio reiterou seu compromisso em abordar, “de forma dialogal e respeitosa”, os desafios que se colocam na sociedade pluralista em que vivemos, prezando “o respeito à liberdade e apreço à tolerância”.6

Se a imagem da professora ferida no primeiro acontecimento pode ser vista como “emblemática da falência não do nosso sistema de ensino, mas da sociedade como um todo”, como sugeriu Ruffato, os desdobramentos do caso Santo Agostinho mostram que ainda é possível acreditar que o respeito e a justiça sejam valores reinantes no espaço da escola – e na sociedade de forma mais ampla. Esses são valores centrais na construção de uma educação capaz de fomentar a transformação e a libertação dos sujeitos – como defende Paulo Freire em toda a sua obra.7

1 Professora é agredida por aluno de 15 anos em Santa Catarina – Estado de Minas

2 Falta de educação – El País

3 Conforme matéria do Estado de Minas, “Uma notificação extrajudicial é enviada antes da abertura de um processo na Justiça. Ela representa uma comunicação para que o órgão notificado tome ciência do problema e resolva a situação antes que ele seja acionado na Justiça”.

4, 6 Grupo de pais do Colégio Santo Agostinho questiona ensino de diversidade sexual e gênero – Estado de Minas

5 Em carta, alunos do Santo Agostinho defendem ensino de diversidade sexual e de gênero – Estado de Minas

7 Para uma boa entrevista com o educador: Paulo Freire: “Nós podemos reinventar o mundo” – Nova Escola

Paula Simões
Professora do PPGCOM-UFMG
Coordenadora do GrisLab



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