Análise | Internacional

Escravos no século XXI – parece uma metáfora, mas é a realidade da Líbia

Inúmeros imigrantes africanos, na rota em direção à Europa, tem sido sequestrados e mantidos como escravos na Líbia. A situação ganhou repercussão mundial e revela não só problemas relacionados à imigração e ao fechamento das fronteiras europeias, como também o racismo que continua fazendo vítimas ao longo dos séculos.

Fonte: UOL.

Há poucos dias, a rede de televisão CNN chamou a atenção do mundo com a divulgação de imagens de um mercado de pessoas escravizadas na Líbia, leiloados e vendidos por cerca de 1,5 mil reais. São refugiados vindos principalmente da África subsaariana e sequestrados na rota em direção à Europa, cujo país mais próximo da Líbia é a Itália. Depois da TV norte-americana, diversos veículos repercutiram a notícia sobre o leilão de pessoas escravizadas em pleno século 21, dando enfoque a depoimentos de vítimas que foram escravizadas e obrigadas a trabalhar em fazendas ou, no casos das mulheres, vendidas como domésticas e/ou escravas sexuais.  Especialistas também foram convocados para explicar a conjuntura em que o país se encontra, pós-Kadafi nos últimos anos. A Líbia teve ajuda militar internacional (OTAN) para depor o ditador, mas, falida, foi abandonada à própria sorte, sem conseguir se reorganizar social e politicamente.

A mídia, nesse caso, parece assumir um papel social especialmente importante por publicizar o fato com a possibilidade concreta de ampliar mundialmente os impactos da denúncia. Ao mesmo tempo, também é significativo refletir sobre o enquadramento proposto por essa contextualização.

Em abril deste ano, a Organização Internacional para as Migrações, OIM, agência vinculada às Nações Unidas, publicou um relatório no qual denunciava que na Líbia existe, há meses, mercados de pessoas escravizadas. No entanto, o fato só virou notícia meses depois, com a reportagem da CNN. Isso aponta não só o enfraquecimento desses órgãos internacionais, que mesmo com denúncias graves não conseguem pautar a mídia, como também um desinteresse midiático pela situação dos imigrantes.

O acontecimento também é sintoma do fechamento das fronteiras europeias, o que torna países fronteiriços com a Europa o destino final para milhares de imigrantes. Vemos aqui a escolha, por parte da Europa, do caminho mais fácil, ao tomar medidas paliativas, que garantam apenas que os imigrantes não entrem em seu território, ao invés de investir nestes países de origem de modo com que sua população não se veja obrigada a sair de sua terra natal em busca de uma vida digna.

Mais do que um problema localizado, acreditamos que este acontecimento evidencia o racismo como um problema mundial. Rejeitados pela Europa, escravizados na Líbia, vítimas do preconceito em muitos países, os negros repetem a história. Neste caso de escravidão, entre tantos imigrantes que chegam à Líbia, é o negro que é escravizado, subjugado, associado à força e à servidão, e vendido como mercadoria. Por mais que esse acontecimento pareça distante da realidade brasileira, ele está muito próximo, já que a população negra continua sendo, no nosso país, vítima diária do preconceito e da violência, e também principal rosto das camadas sociais mais baixas e dos chamados subempregos. Há avanços, como o fato de o racismo ser crime, mas o caminho ainda é longo e passa por investimentos políticos, sociais e educacionais amplos, nos quais a sociedade brasileira precisa ser a principal aliada.

Fabíola Souza
Doutoranda do PPGCOM-UFMG

Fernanda Medeiros
Doutoranda do PPGCOM-UFMG

 



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