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Massacre em Suzano: violência e a busca de visibilidade

Admiradores do ataque à escola em Columbine (EUA) e em Realengo (RJ), os dois atiradores planejaram o massacre por meses. O resultado foram dez mortos, incluindo o tio de um dos atiradores, onze feridos e uma comunidade escolar fragilizada.

Foto: Miguel Schincariol/AFP

Suzano, manhã de quarta feira, 13 de março. Era hora do lanche na Escola Estadual Raul Brasil, quando os alunos do Ensino Médio foram surpreendidos pelo ataque de Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25. Munidos de um revólver 38, um arco e flecha, uma besta (tipo de arco e flecha que dispara na horizontal) e uma machadinha, os dois começaram a atirar indiscriminadamente contra alunos e funcionários, o que resultou em sete mortes (cinco alunos e duas funcionárias) e onze feridos. Com a chegada da polícia, Guilherme atirou na cabeça do comparsa e em seguida se matou. Outra vítima dos atiradores foi Jorge Moraes, tio de Guilherme, assassinado minutos antes do ataque em sua Locadora de Automóveis.

O ataque ganhou grande repercussão midiática, sendo o motivo do atentado a principal pergunta a ser respondida. Na cobertura do caso, percebemos um grande interesse pelos agressores e por indícios que sinalizassem a tragédia. O bullying chegou a ser apontado como um possível motivador do crime, no entanto, segundo investigações da polícia, a principal motivação seria a busca de reconhecimento e visibilidade midiática. “Eles não se sentiam reconhecidos e queriam demonstrar que podiam agir como em Columbine com crueldade e um caráter trágico”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Fontes. Investigações apuram ainda o envolvimento de um terceiro jovem, de 17 anos. Mensagens trocadas com os agressores trazem indícios de sua participação na organização do crime e por isso o jovem permanece apreendido na Fundação Casa.

O massacre em Suzano, além de alertar sobre a segurança de alunos, professores e funcionários nas escolas brasileiras, faz refletir sobre o papel da escola como mediadora de conflitos. Na análise do acontecimento, especialistas em educação  reforçaram a importância de incentivar o protagonismo estudantil, de promover espaços de fala para os alunos, além da criação de redes de apoio, que auxiliem os estudantes a resolver conflitos dentro e fora da escola.

O acontecimento também retoma a discussão em relação à ampliação da posse de armas. Enquanto educadores e especialistas apontavam principalmente para os riscos de outros massacres, facilitados pelo acesso às armas de fogo, políticos como o senador Major Olímpio (PSL-SP) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) defenderam o uso de armas. Major Olímpio chegou a afirmar que o ataque não teria ocorrido se professores estivessem armados. Discursos políticos como esses, além de demonstrarem um total desrespeito às instituições de ensino e educadores, sinalizam uma tentativa de inversão de papéis, ao responsabilizar o próprio cidadão, e não o Estado, por sua segurança. Além disso, causa distração para o enfrentamento do verdadeiro problema: uma sociedade adoecida e inflamada por discursos de ódio e intolerância ao outro e às diferenças.

É preciso também pensar sobre o papel da internet em tudo isso. A polícia investiga se os jovens participavam de fóruns de discursos de ódio, os “chans”, na deep web, e se outros membros destes fóruns teriam atuado no incentivo aos ataques. Independente disso, uma reportagem da Revista Época aponta que nas redes sociais de Guilherme era possível identificar discursos de ódio, apologia ao uso de armas e elogio aos responsáveis por massacres. Outro dado preocupante é que, após o ataque, seu perfil no Twitter ganhou centenas de novos seguidores e muitos elogios.

Massacres como o de Suzano alertam que não é possível mais fechar os olhos para o problema. É preciso que as autoridades desenvolvam mecanismos para coibir e punir essas ações dentro e fora da internet e que também a própria sociedade combata os discursos de ódio e intolerância que ultrapassam as redes sociais e inflamam as relações e a vida cotidiana.

Fabíola Souza
Doutora em Comunicação Social pela UFMG e pesquisadora do GRIS



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