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O acontecimento em imagem: conflito entre Israel e Palestina

O objetivo dessa análise é fornecer um olhar mais atento sobre imagens com as quais nos relacionamos no dia a dia. Lemos as imagens de uma maneira que nos parece totalmente “natural”, que aparentemente, não exige qualquer aprendizado, sem perceber tudo o que essa leitura “natural” da imagem ativa em nós em termos de convenções, de história e de cultura mais ou menos interiorizadas.

A imagem escolhida para esta análise foi veiculada na revista ISTO É de 13 de julho de 2014 que aborda um fato importante atual: os violentos combates travados entre Israel e Palestinos, nos quais muitos civis palestinos têm sido mortos devido ao uso de força desproporcional por parte dos israelenses.

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A fotografia ocupa uma posição e tamanho de destaque na revista: quase duas páginas, uma área bem significativa. Por meio de uma composição sofisticada e referências à iconografia católica, nos é apresentado uma imagem que funciona como uma síntese do conflito.

Num primeiro olhar, percebemos um local completamente devastado e alguns civis no meio dos escombros. Com a ajuda do texto escrito, logo fica claro que ali está representada uma das principais consequências dos implacáveis bombardeios de Israel, que têm atingido prédios civis e matado muitos palestinos. Entretanto, um olhar mais demorado sobre a fotografia pode perceber uma referência à iconografia católica e uma representação machista a respeito das relações entre homens e mulheres.

Na página da esquerda, em primeiro plano, uma mulher aparentemente jovem, vestindo um manto mulçumano (khimar) apresenta uma expressão de dor e lamentação. O foco da imagem está nessa mulher e ela ocupa uma posição privilegiada (está localizada em um dos pontos considerados de maior tensão visual numa imagem fotográfica: um dos pontos áureos). Não é à toa que ela ocupa esse lugar de destaque: essa mulher é a única referência que nos garante se tratar de civis palestinos, graças ao seu vestuário.

Além disso ela encarna o sofrimento infligido pelos israelenses ao povo palestino. A expressão analítica do seu rosto nos apresenta dor, drama e essa aflição é reforçada pelo diálogo com a iconografia católica da Mater Dolorosa, que representa a dor da mãe de Cristo diante do seu filho morto. A agonia da mulher palestina, entretanto, não é contida, como é comum de se encontrar nessa iconografia.

No plano seguinte, dois homens caminham entre os escombros, sugerindo que estão em busca de algo. Em último plano é possível ver a rua e os prédios. Essa visão não é possibilitada por uma bela bay window, mas pela ausência de paredes, consequência dos bombardeios realizados pelo exército de Israel. O interior do prédio, todo destruído, é escuro, cheio de restos e pedaços, em contraste com o lado de fora, em que há uma luz brilhante e é possível ver a paisagem verde intocada.

A imagem escolhida apresenta ao leitor um grupo de civis, provavelmente da mesma família, no meio dos escombros causados por mísseis de Israel. Esse ambiente escuro e caótico é uma metáfora da situação pela qual os palestinos estão passando. No grupo de pessoas retratado como vítimas, a mulher, figura principal, assume uma postura de desespero, passiva, de lamentação. Já os homens são retratados como seres de ação, que não se abalam com a tragédia.

André Melo Mendes
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e pesquisador do Gris/UFMG



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