Análise | Esportes

O futebol e a(s) violência(s) no Brasil contemporâneo

O texto reflete sobre a relação entre violência e futebol no contexto brasileiro contemporâneo, tendo como ponto de partida as brigas que marcaram a final do Campeonato Alagoano de Futebol, realizada no estádio Rei Pelé, em Maceió, no dia 8 de maio de 2016. A partir disso, aponta para as muitas violências que colocam em risco a sociedade democrática.

Confusão na final do Campeonato Alagoano de 2016. fonte: TNH1

Confusão na final do Campeonato Alagoano de 2016. fonte: TNH1

8 de maio de 2016. Era a partida final do Campeonato Alagoano de Futebol realizada no estádio Rei Pelé, em Maceió, em que disputavam CRB (Clube de Regatas Brasil) e CSA (Centro Sportivo Alagoano). Aos 46 minutos do segundo tempo, depois do gol de Neto Baiano que consagraria a vitória (e o título) ao CRB, dezenas de torcedores invadiram o gramado e protagonizaram cenas que reconfiguraram o que estava acontecendo ali: da festa esportiva que é um jogo de futebol à barbárie de uma violência gratuita contra membros do time vencedor. Algumas das imagens exibem cerca de 15 torcedores desferindo socos e pontapés em um torcedor do time rival: um jovem de 17 anos que seria internado no Hospital Geral do estado com um trauma na face.

A violência entre torcidas de futebol não é uma novidade no Brasil tampouco é uma especificidade de nosso contexto. Vale lembrar, por exemplo, a chamada Tragédia de Heysel (na Bélgica), quando 38 pessoas morreram e 450 ficaram feridas antes de um jogo de futebol entre Liverpool e Juventus, pela final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em 1985. A configuração desse acontecimento trágico e suas disputas simbólicas foram investigadas em interessante análise desenvolvida por Michel de Fornel (1997).

No Brasil, a recorrência de atitudes violentas nos jogos de futebol impulsionou a configuração desse tipo violência como um problema público em nosso país, convocando a ação do Estado para enfrentá-lo. Em 2004, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva instituiu uma comissão conhecida como Paz no Esporte, que tinha como missão “preservar o espetáculo, garantindo a Segurança e o direito à Cidadania”. Segundo o jornalista Juca Kfouri, em análise recente, o documento apresentava boas soluções para enfrentar o problema, mas foi engavetado pelo Ministério do Esporte.

Como compreender o que aconteceu em Alagoas, tendo em vista a breve contextualização construída aqui? Duas considerações serão destacadas:
1) A violência nos estádios continua sendo um problema público que deve ser enfrentado pelo Estado e pela sociedade, no intuito de garantir a missão destacada pela comissão Paz no Esporte. Soluções precisam ser implementadas a fim de garantir que encontros esportivos sejam momentos de lazer e entretenimento vividos com segurança por diferentes grupos e times – preservando a diversidade, bem como o respeito a ela.

2) A violência entre torcidas precisa ser compreendida como uma face das muitas violências que temos visto persistir e proliferar no Brasil contemporâneo: o desrespeito e a intolerância a que assistimos nas agressões no estádio alagoano também se manifestam em inúmeros outros contextos – contra as mulheres, os homossexuais, os negros, os pobres, os nordestinos, enfim, contra inúmeros grupos em tantos outros acontecimentos cotidianos que procuramos analisar aqui.

O enfrentamento dessas e outras violências, associado à busca do respeito às alteridades, é fundamental na construção de uma sociedade democrática – tão ameaçada no contexto em que vivemos.

Referência citada:
FORNEL, Michel de. Violence, sport et discours médiatique. L’exemple de la tragédie du Heysel. In: BEAUD, Paul et al. (Orgs.). Sociologie de la communication. Paris: Réseaux / CNET, 1997. p. 453-471.

 

Paula Simões
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris/UFMG

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de junho, definido em reunião do GrisLab.



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