Análise | Questões indígenas

Quando o acontecimento é outro: reza, história e sabedoria do povo Kaiowa

O texto tem como proposta assinalar o poder acontecimental dos cantos-reza, modo principal de produção, reprodução e transmissão da ciência e filosofia Kaiowa, com o objetivo de aportar uma visão histórica da região sul do Mato Grosso do Sul na perspectiva de um dos grupos sociais mais importantes na sua constituição: os ava e as kuñague Kaiowa. As origens do mundo situadas no tempo mítico e na geografia do Yvy Pyte (Coração da Terra) é fonte de novas direções para a interpretação historiográfica assentada até agora na visão do tempo cronológico de matriz europeu, sob a égide de um regime de conhecimento desterritorializado.
Foto: Tereza Amaral

Foto: Tereza Amaral

Kaiowa é um dos grupos étnicos que compõe a matriz linguística tupi-guarani que ocupam milenarmente o sul do atual estado brasileiro de Mato Grosso do Sul. Parentes próximos dessa matriz também existem em outros países da América Latina como Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, subdividindo-se, de acordo com a literatura antropológica, em três grupos da língua falante de guarani: Mbya, Kaiowa e Nhandeva. Os Mbya serão mais encrontrados em Paraná e Santa Catarina, e ao sul de Argentina e sul do Paraguai. Já os Kaiowa, assim denominados no Mato Grosso do Sul onde estão localizados sobretudo no sul do estado, mas também chamados de Paitaviterã que habitam o território paraguaio.

Vale dizer que a grande fonte explicativa do mundo para a filosofia kaiowa é a reza do xamã que não tem outra maneira de explicar ou transmitir os seus conhecimentos. Somente rezando e praticando para poder compreende-los, porque segundo os sábios kaiowás quando essa prática não é cumprida e/ou ignorada, acontece a escassez de todas as formas de vida. É ela que afirma a procedência dos kaiowás mantendo-os em orientação cosmológica sob a direção de Ñanderu (Grande Pai) e Ñande Sy (Grande Mãe) em busca da perfeição, da boa vida após a morte terrenal. Tanto as letras dos cantos-rezas coletadas com os rezadores que traduzem a visão cosmológica deles sobre a origem da terra quanto os próprios gêneros musicais que também em sua melodia cifram as explicações sobre o começo e do fim da vida e do mundo, as sete catástrofes anunciando o apocalipse na visão kaiowá, reafirmam constantemente essa cosmovisão.

Ainda é pouco explorado o grande potencial de conhecimento histórico preservado na memória dos rezadores e principalmente o potencial epistêmico que esse conhecimento tem em si mesmo. Há uma luta contínua, dia a dia, para manter viva a a cultura que nós chamamos de teko, acreditando na plenitude do além da vida terrena após a morte e, ao mesmo tempo, mostrando a forma de resistências do grupo lutando, permanentemente resistindo firme, diante da discriminação e o preconceito racial pela sociedade não indígena. A situação de discriminação e preconceito muito tem a ver com o profundo desconhecimento sobre filosofia, saberes e ciência dos kaiowa que têm uma explicação exuberante sobre como se originou o mundo.

Durante os séculos, essa cosmologia foi vista como inferior pela visão cristã, uma vez que o país fora colonizado por católicos portugueses e espanhóis, que viam o universo do nativo como se negasse ao encontro da salvação que segundo a sua religião pregada em Deus monoteísta, e esse choque de visionismo criava o preconceito e condenação com índios aqui no Brasil durante todos o século de domínio fazendo como inferior. Tal situação histórica que coloca o kaiowa numa posição subalterna também se reflete na historiografia da região sul do Mato Grosso do Sul até agora majoritariamente objeto de interpretação da história branca ocidental. É essa historia a convencionada no ensino escolar e nos livros didáticos, sempre retratando os indígenas como preguiçosos reproduzindo o preconceito e o racismo. Algo mudou com a Lei Nº 11.645, de 10 de março de 2008, que obriga o ensino de história africana e indígena nas escolas, mas é preciso que se criem fontes e pesquisas para alimentar esse novo ensino.

Texto de Daniel Lemes Vasquez, professor de escolas indígenas em Mato Grosso do Sul, atualmente lotado na reserva Amambai. É aprendiz de xamã e exímio cantor, atuando como assistente de xamã nas rezas longas (mburahei puku). Formado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), cursou a formação para professores indígenas Teko Arandu na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Participa do movimento Aty Guasu Guarani-Kaiowa, sendo importante liderança política na defesa dos interesses de seu povo. Atua também como tradutor de Guarani-Português.



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