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Tragédia mineira: O choro é livre? A memória não.

Diário da Copa – A derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 causou espanto. Uma comoção coletiva tomou conta dos torcedores da seleção canarinha, que agora amarga uma lembrança pior que a de 1950, quando perdeu a final da Copa, em pleno Maracanã, para o Uruguai. Nesta análise, Renné França fala sobre uma nova memória coletiva, o já chamado Mineirazo, que suplantou outras tragédias, como a queda de um viaduto em Belo Horizonte.

É comum torcedores adversários provocarem uns aos outros após uma derrota com a expressão “o choro é livre”. Mas quase não se viu choro após a derrota de 7 a 1 que o Brasil sofreu para a Alemanha em Belo Horizonte. A semifinal da Copa no Mineirão mostrou, no lugar de lágrimas, olhos arregalados e bocas abertas. Alemães e brasileiros, dentro e fora de campo, em estado de choque. Estávamos todos no centro do acontecimento.

Uma partida de Copa do Mundo é um acontecimento programado, com data e hora marcada. O resultado também não foge do esperado: derrota de um, vitória do outro ou empate. Claro que surpresas acontecem, e causam saliências no cotidiano. Mas uma das seleções favoritas levar 7 gols na semifinal de um torneio em seu próprio país é inesperado, rompe com qualquer expectativa. Ao se dar, a maior derrota da história da seleção brasileira provoca tal ruptura que nos faltam referências para organizar os fatos: o trauma maior, repetido à exaustão ao longo de 64 anos, é a derrota na Copa de 1950 no Maracanã. Mas ali a seleção perdeu em casa por 2 a 1, e na final. O já chamado “Mineirazo” (em substituição ao “Maracanazo” de 50) foi algo novo, um momento constituidor.

Na construção de uma memória coletiva, a derrota por 7 a 1 possui força enquanto acontecimento para atualizar o trauma de 1950 com uma memória recente, dando a esta geração seu próprio luto coletivo. Morin já tratou da importância cultural destes momentos de tragédias coletivas, que reforçam o sentimento de identidade e pertencimento. Enquanto força hermenêutica o acontecimento resignifica, varrendo não apenas o entorno do Mineirão, mas também os sentidos ligados à própria Copa no Brasil. Após um breve momento de otimismo, críticas contra o governo federal retornaram com força, assim como uma atenção maior para problemas que a festa parecia eclipsar. Tudo isso enquanto os jornalistas tentavam em vão construir uma intriga que explicasse o vexame em campo.  Mas o acontecimento também muda seu anterior, e a derrota de 1950 não parece mais tão cruel, e um novo passado se constrói frente aos nossos olhos, irrigado por uma memória baseada na dor.

Na mesma cidade do Mineirazo ocorreu uma tragédia maior 5 dias antes. Um viaduto caiu sobre a Avenida Pedro I, deixando mortos e feridos. Mas a saída de Neymar da Copa do Mundo chamou mais atenção e a derrota para a Alemanha suplantou a ambos em uma cultura (não apenas a brasileira) em que o luto coletivo pelo esporte é mais forte do que pela vida. A verdade é que a derrota uniu os brasileiros (seja em revolta ou espanto) mais do que a queda do viaduto. E não por acaso. No embate de sentidos em torno do acontecimento Copa, a narrativa de valorização do evento e seus heróis foi de tal forma avassaladora (tanto nas representações do presente quanto do passado) que quando aquela derrota quebrou com qualquer expectativa ficamos todos sem chão, buscando explicar o inexplicável que é a natureza própria do acontecimento.

E na memória do recente drama brasileiro, os infinitos gols da seleção alemã em sua eterna repetição nos canais de tv suplantarão a memória dos mortos e feridos na capital mineira. O choro é livre para que todos soframos com nossas mais variadas perdas. Mas a memória socialmente partilhada não. Ela depende de um engajamento coletivo. E que a memória da grande tragédia mineira de 2014 seja o Mineirazo diz muito de nossa noção de coletividade. Para o bem ou para o mal.

Renné Oliveira França
Doutor em Comunicação Social pela UFMG 
Pesquisador do Gris/UFMG



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