Análise | Especial Internacional

Diplomacia em chamas: incêndio na Amazônia tensiona relações internacionais brasileiras

Quem é responsável pela proteção da Amazônia? Diante do crime ambiental de proporções irreparáveis e do comportamento irresponsável do governo brasileiro, lideranças mundiais reagem em defesa da Floresta e clima de tensão se instala em relações internacionais.

Foto: JACQUES WITT (AFP)

Não são apenas celebridades que estão se manifestando sobre o crime ambiental que incendeia a Amazônia em níveis recordes. A questão tornou-se uma pauta diplomática e envolve líderes das principais potências mundiais.  Longe de ser um problema exclusivamente brasileiro, a questão climática é central nas discussões mundiais. A preservação ambiental (compromisso com a luta pela biodiversidade e com o Acordo de Paris) foi uma exigência, feita ao Brasil, diante do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul (1), firmado em junho deste ano.  Apesar da implicação internacional, o posicionamento do governo brasileiro não apenas estimula práticas de desmatamento, como fragiliza suas instituições de controle, como é o caso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que, neste ano, teve corte de 24% do seu orçamento (2). 

Diante da situação, milhares de pessoas em diversos países saíram às ruas para protestar (3) em favor da preservação da floresta, que é fundamental para amenizar as mudanças climáticas sofridas no mundo. Mas isso não foi tudo: diversas empresas suspenderam a importação de couro do Brasil, até que seja garantido que os produtos não contribuem para o dano ambiental em questão (4), ampliando a crise para o agronegócio e para a economia do país. 

Além das mobilizações de empresas e da sociedade civil, Alemanha e Noruega bloquearam repasses financeiros destinados à preservação da Floresta (5). Irlanda, Canadá, Reino Unido, entre outros países, também endossaram a preocupação com as queimadas. Por outro lado, o presidente dos Estado Unidos, Donald Trump, afirmou que Jair Bolsonaro está fazendo um grande trabalho na Amazônia e que as perspectivas comerciais futuras são muito empolgantes, bem como ofereceu dinheiro para combater as queimadas.

Outra ajuda financeira também foi proposta pelos membros do G7, que foi rejeitada pelo governo, por causa da briga que os presidentes brasileiro e francês protagonizaram – o caso mais emblemático da crise diplomática desencadeada pelo crime ambiental. Emmanuel Macron acusou o dirigente brasileiro de ter mentido na cúpula do G20 sobre compromissos ambientais firmados e ameaçou não assinar o acordo comercial com o Mercosul.

A reação de Bolsonaro foi extremamente desrespeitosa – sem argumentos de defesa e em uma atitude misógina, o presidente brasileiro fez piada contra a aparência de Brigitte Macron, esposa do presidente francês, que questionou se o brasileiro estava “à altura” do cargo que exerce e afirmou que “isso não é atitude de presidente”. O caso reverberou bastante e culminou com o lançamento de uma campanha por Tiphaine Auzière, advogada e filha de Brigitte Macron (6). A campanha on-line, traduzida por “denuncie seu misógino”, foi criada para denunciar atos de misoginia, como os cometidos por Bolsonaro contra sua mãe. A campanha, que já foi visualizada por quase meio milhão de pessoas, faz referência ao movimento MeToo, de 2017, criada para incentivar mulheres a denunciar casos de abusos sofridos com a hastag #balancetonporc (“denuncie seu porco”).

Este é Bolsonaro. Transforma a discussão de um problema de interesse mundial num deplorável fait divers; dissolve uma irresponsabilidade política num comentário misógino de um sujeito pouco qualificado.

Chloé Leurquin, doutoranda em Comunicação pela UFMG e pesquisadora do Gris



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