Análise | Especial Religião

Dossiê Papa: Papa visita os Estados Unidos

O sucesso de um líder católico em uma imensidão protestante

Houve muita expectativa pela visita do papa Francisco aos Estados Unidos. Mas republicanos – principalmente – e democratas mantiveram cautela, já que o pontífice é conhecido por posições progressistas na Igreja Católica e seu discurso poderia impactar a tensão que se instalou nos EUA às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para 2016. No entanto, a política ficou em segundo plano quando o papa afetou milhares de pessoas e configurou públicos em seu favor em um país majoritariamente protestante. O argentino, naquele momento, transcendeu os conflitos entre valores, práticas e instituições, mostrando que pode se manter pop por muito tempo.

Papa Franciso com o presidente Obama e a primeira dama Michelle. Fonte: Jornal NH

Papa Franciso com o presidente dos EUA Obama e a primeira-dama Michelle. Fonte: Jornal NH

No meio-oeste dos Estados Unidos, uma senhora sonha em se casar de novo na Igreja Católica, mas é impedida, pois se divorciou do primeiro marido. Afinal, nos dogmas católicos, o que Deus uniu o homem não separa. Mesmo assim, inspirada pela aura positiva que o ainda surpreendente Papa Francisco transparece, enviou um pedido de anulação do primeiro matrimônio ao Vaticano. Ele trouxe esperanças que não “viverá em pecado” com o novo marido até o fim da vida. Em setembro, acompanhou de perto todos os passos do pontífice argentino, que encontrou no país um desafio religioso.

A história dessa americana é real, mas os Estados Unidos estão longe de ser povoado por fieis como ela. O número de católicos vem caindo por lá, onde a maioria da população é protestante. Contudo, segundo uma pesquisa recente do Washington Post-ABC News, 70% dos norte-americanos têm uma impressão favorável de Francisco que, dois anos depois de ser eleito, continua sendo um acontecimento curioso e imprevisível. Há quem se espante com tamanha aprovação de sua imagem na contemporaneidade, mas Joas (2015) já defendeu que a secularização não conduz à decadência moral. Especialmente nos EUA, onde a religião é bastante presente no cotidiano. Talvez, a individualização e a fragmentação do mundo atual levem os sujeitos a buscarem âncoras morais. E Francisco está lá.

Após passar por Cuba, com quem os Estados Unidos acabam de reatar laços, o papa chegou à potência mundial como o grande nome que mediou a retomada de relações. Primeiro pontífice a discursar no Congresso americano, foi recebido com cautela pelos políticos. Sua fala foi contundente e não agradou plenamente nem democratas ou republicanos. Pediu o fim da hostilidade com imigrantes, da abolição da pena de morte e da venda de armas; pediu cautela com o fundamentalismo religioso e luta pela igualdade; por fim, demonstrou preocupação com o futuro das famílias e dos casamentos. O plenário estava lotado, e a mídia toda com os holofotes para seus movimentos. Na conversa privada com o presidente Barack Obama, ressaltou a questão climática, a crise migratória e a aproximação com Cuba. Tais fatos desvelaram o contexto de tensão da política americana, em que tais temas são pauta da rivalidade entre os dois partidos principais. Apesar de não agradar plenamente nenhum dos lados, o papa mostrou que continua pop.

Em vez de entrar na briga entre os católicos progressistas, os conservadores e os que o veem como marxista, Francisco mirou e afetou fieis e não fieis. Nas três cidades por onde passou, Washington, Nova Iorque e Filadélfia, levou milhares de pessoas às ruas. Mais impactante do que sua visita ao Memorial do 11 de Setembro, seu discurso na ONU ou o encontro privado com vítimas de abuso sexual praticados por membros do clero foi a comoção que um papa conseguiu despertar em um país claramente protestante. Como diz Joas (2011), a tradição não produz nada por si só, mas sim sua apropriação pelos sujeitos na tensão entre valores, práticas e instituições. Neste caso, parece que o tom ecumênico do papa foi capaz de aliviar essa tensão e aproximar fieis de diferentes credos em busca de um mundo com valores morais mais definidos.

 

Juliana Ferreira
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris

 

Confira as outras análises do Dossiê Papa:

O discurso diplomático do Papa Francisco em Cuba (Maíra Lobato)

O Papa e a homossexualidade (Vanrochris Vieira)

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do Grislab.



Comentários

  1. ver más disse:

    Muchas veces los problemas laborales, períodos de tensión o estrés relacionados con cualquier área de la vida también pueden tener un efecto significativo en el rendimiento sexual. Esto no sólo reducirá los problemas de erección, sino también promueve la intimidad en la relación.

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