Análise | Diário da Quarentena Poder e Política

O pico de Jair Bolsonaro no pico da pandemia

A popularidade de Bolsonaro aumenta em pleno pico da pandemia no Brasil. É importante tentar compreender esse aumento para além das explicações simplistas e preconceituosas que apontam os pobres e o “estômago”.

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

Segundo a mais recente pesquisa DataFolha, Jair Bolsonaro bateu seu recorde de popularidade em seu mandato de acordo com a série histórica do instituto. Saiu de 32% na última pesquisa para 37% na mais atual. A mudança no  índice de rejeição ao presidente eleito em 2019 foi ainda mais expressivo e despencou dez pontos. De 44% a 34%. Bem em cima de mais de 100 mil cadáveres produzidos pela Covid-19, graças a um enorme empenho do governo federal em minimizar a gravidade e represar ações e políticas de combate à pandemia, somado a novas e evidentes revelações do envolvimento da família Bolsonaro com corrupção, o presidente encontrou motivos para comemorar diante de sua obra necropolítica ainda inacabada.

O que explica?

Muitos já estão engatilhando o velho e nojento argumento do “estômago” para culpar os de sempre: os pobres. Bolsonaro foi eleito expressivamente pelo apoio dos mais endinheirados, a faixa onde arrancava o maior percentual de votos. Mas segundo essa lógica, esses não votam com o estômago, mas com a razão (sic!). Pobre não raciocina, pobre é levado pela fisiologia — ainda que, obviamente, não estejamos a falar apenas de pobres quando se trata do auxílio emergencial, mas de trabalhadores informais, autônomos, etc.

O argumento não se sustenta, embora já esteja socialmente engatilhado.

Houve queda acentuada na rejeição de Jair Bolsonaro no Nordeste. De 52% para 35%. É também no Nordeste que temos o maior número de solicitantes do auxílio emergencial. Mas não sejamos Alexandre Garcia com suas falácias lógicas. Entre os que fizeram o pedido do auxílio emergencial, 42% acham Bolsonaro ótimo ou bom. Esse é um percentual só um pouco acima da média geral. E o mais importante, 36% dos que não fizeram solicitação do auxílio acham a mesma coisa. Percentuais muito próximos.

Mais um pouquinho: o percentual de ótimo/bom cresceu em 3 dos 4 estratos sociais analisados pela pesquisa. Só caiu em um. 6 pontos. Adivinhem em qual. No estrato de renda mais baixa, de até 2 salários mínimos. Ou seja, quem aposta que o tal “coronavoucher” está alavancando a popularidade de Jair Bolsonaro e reduzindo sua rejeição, cede apenas a uma simplificação interpretativa, ainda que legítima, ou a um preconceito de classe tradicionalmente enraizado no Brasil, que não para em pé diante dos dados.

Argumento mais: o aumento da popularidade e queda da rejeição se deu acentuadamente em todo o país. Vejam o Sudeste: saiu de 29% para 36%. Rejeição de 47% para 39%. São números de apoio muito mais expressivos do que no Nordeste. No Sul e Norte/Centro Oeste, o presidente bate em 42% de aprovação.

Passemos para outros aspectos demográficos.

Jair Bolsonaro teve queda acentuada de rejeição entre os mais jovens. Entre os que têm curso superior, saiu de 53% para 47%. Entre os mais ricos de 52% para 47%. Os empresários o apoiam ainda mais: saíram de 51% para 58% de ótimo e bom. E entre estudantes, a rejeição saiu de 67% para 56%. 11 pontos de queda. Um tombo super positivo para o mandatário.

Bem, existem muitos fatores que explicam muito disso e, ao contrário de Folha de São Paulo, não me parece que esses resultados tenham alguma relação com a mudança de tom teatralmente simulada de recuo das investidas autoritárias do presidente.

Eu vou enumerar apenas 5:

1) A pandemia no Brasil acabou. Não factualmente por óbvio. Continua registrando recordes de contaminação e óbitos. A pandemia acabou na maior parte da percepção pública brasileira. Com costumei defender em muitos fóruns online, quem apostava que pilhas de corpos detonariam a sustentação popular de Jair Bolsonaro, apostou muito alto e menosprezou muito a incapacidade do Brasileiro de exercer a solidariedade e a compaixão.
Igualmente, menosprezou muito a força de Jair Bolsonaro e seu investimento no argumento de que a economia é mais importante e pode matar mais. O bolso de muitos pesou, o governo ajudou a pesar quando podia aliviar, mas conseguiu emplacar a percepção de que a culpa não é dele, mas de governadores, e a vida precisa voltar ao normal. As pessoas precisam trabalhar.

2) A chateação dos antigos apoiadores, que fizeram a popularidade de Bolsonaro cair e sua rejeição aumentar, era apenas, como dito, chateação. Nada que o tempo não resolva. Briguinha de casal. Bolsonaro é a síntese perfeita da qualidade moral brasileira, principalmente nos estratos socioeconômicos superiores.

3) Bolsonaro é uma questão moral. A afinidade brasileira com Bolsonaro se dá fortemente por conta de seus valores e atitudes. Autoritário, misógino, racista, homofóbico, classista, boquirroto, autêntico, demófobo, punitivista e seletivo. Isso é uma base de sustentação que resiste a abalos sísmicos de grande escala.

4) O jornalismo brasileiro não é anti-Bolsonaro, como seria com algum governante à esquerda sem um projeto de desmonte do Estado e garantias a trabalhadores. É regido pela defesa dos interesses que tem e de quem representa por afinidade. E, para mim, a constatação é simples e se explica por uma anedota: fosse uma Dilma ou um Lula da vida à frente dessa necropolítica face à pandemia, os enquadramentos que estaríamos vendo seriam o de que perderam a capacidade de governar — e tirá-los da presidência seria uma questão urgente e inadiável de saúde pública

5) Há um submundo complexo da comunicação por onde essas pessoas também se informam, conversam, discutem, compartilham experiências, relatos e entendimentos. Pode ter algum grau de influência nesse processo. A grande imprensa brasileira não é mais detentora de um poder de centralização, hierarquização e enquadramentos majoritários daquilo que acontece na vida pública do país. A capacidade de produção e circulação de mensagens, conteúdos e informações em larga escala agora também se instala nas mãos de grupos menos poderosos econômica e socialmente. Desse modo, a disputa pela construção e sedimentação de narrativas social e politicamente relevantes — que servem de munição para que todos nós construamos sentidos sobre a realidade e conduzamos nossas ações, atitudes, comportamentos e opiniões — podem (e de fato vêm) de fontes as mais variadas e muitas concorrentes entre si. Isso pode tornar as disputas pela construção de climas de opinião muito mais complexas e indeterminadas.

Camilo de Oliveira Aggio, professor adjunto da UFMG – Departamento de Comunicação Social/PPGCOM. Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD)



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