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A revolução dos guarda-chuvas – desencontro entre imagem e texto

O acontecimento em imagem:
A revolução dos guarda-chuvas

A ilha de Hong Kong, ex-colônia britânica, enfrenta a maior crise política desde sua devolução à China, em 1997. Reivindicações pela democracia e direito ao voto livre desencadearam vários protestos, iniciando a chamada Revolução dos Guarda-chuvas: tema da imagem deste mês.

A ilha de Hong Kong, ex-colônia britânica, enfrenta a maior crise política desde sua devolução à China, em 1997. Reivindicações pela democracia e direito ao voto livre desencadearam vários protestos, iniciando a chamada Revolução dos Guarda-chuvas: tema da imagem deste mês. A “Revolução dos guarda-chuvas”, como tem sido chamada nas redes sociais, vem reunindo milhares de manifestantes que utilizam guarda-chuvas para se defenderem durante os embates com a polícia. A foto realizada por Tyrone Siu, da agência Reuters, veiculada no site da Rádio Canadá, no dia 27 de setembro de 2014, ilustra esse confronto, de maneira contraditória ao que é afirmado pelo título e pela legenda a ela vinculados no site.

revolução dos guarda-chuvas

 

A chave para compreendermos o que acontece nessa imagem é o guarda-chuva negro. Nessa fotografia ele não é apenas uma importante referência para caracterizar o movimento (uma alusão direta à “revolução” em Hong Kong), mas também é o elemento de ligação entre os dois lados da imagem ou, se preferirmos, os dois lados do conflito. Ele conecta os dois grupos envolvidos, policiais e manifestantes, por meio da violência, definindo os papéis de cada um.

Do lado esquerdo da imagem em primeiro plano e no canto inferior, é possível perceber um antebraço, no final do qual sua mão segura o longo cabo do guarda-chuva negro. Logo abaixo dessa mão há um outro pedaço de braço, cortado próximo à altura do cotovelo, que parece complementar o primeiro, como se eles fizessem parte do mesmo corpo e tivessem sido separados, ao estilo de uma composição cubista. Esse “braço cubista” representa os manifestantes de Hong Kong.

O cabo do guarda-chuva negro funciona como uma linha diagonal que leva nosso olhar dos manifestantes até a mancha horizontal azul clara que ocupa os outros dois terços da imagem. Essa forma azul clara é constituída pela unificação visual dos uniformes dos policiais. Os escudos translúcidos que eles carregam, além de deixarem a figura dos policiais embaçada, refletem a luz do dia, produzindo pequenas e suaves linhas verticais brancas que atenuam o aspecto agressivo da linha de escudos.

Na ponta do cabo do guarda-chuva, a parte de náilon está deformada, transformando-se numa forma elíptica negra próxima à cabeça de um dos policiais que tem o rosto protegido por um capacete também da mesma cor. A proximidade e a similaridade de cor entre esses dois elementos fazem com eles sejam visualmente “misturados”, sugerindo a desfiguração do policial.

Assim como o braço que segura o cabo do guarda-chuva representa, por metonímia, os manifestantes, os policiais são representados por essa mancha azul clara e, especialmente, por esse sujeito que está sofrendo a agressão e que tem sua cabeça “fundida” ao guarda-chuva.

O guarda-chuva, um objeto dotado de uma certa fragilidade, que no contexto desse momento retrata também o improviso e a própria falta de força dos manifestantes, no contexto específico dessa imagem assume outro sentido, por estar sendo utilizado para agredir o policial. Apesar da aparente incapacidade desse objeto para ferir, o que a imagem nos mostra é um guarda-chuva atravessando o muro de escudos e “desfigurando” o rosto de um policial. Somada a essa impressão temos outra, sugerida pela disposição dos dois guarda-chuvas combinados com os braços. A disposição desse conjunto acaba sugerindo uma ideia de que um braço segura o guarda-chuva como escudo enquanto que outro usa o outro guarda-chuva como lança (ou espada), como num daqueles antigos combates medievais.

Nessa imagem com uma característica gráfica tão pronunciada, as diagonais dão movimento à cena ao mesmo tempo que delimitam zonas e ajudam na produção de sentido. Além da diagonal formada pelo cabo do guarda-chuva preto, outra diagonal importante é a linha branca que pertence à grade que separa os policiais e os manifestantes. Na imagem usada pela Rádio França, os policiais estão posicionados atrás dessa grade, o que reforça a sugestão de passividade desse grupo.

Por mais que contradiga o senso comum e que o título e a legenda digam o contrário, a imagem afirma algo como “os manifestantes da Revolução Guarda-chuva agridem policiais que apenas se protegem”. O título “Prisões durante um protesto estudantil em Hong Kong” não tem uma relação direta com a imagem, bem como a legenda, “Estudantes pró-democracia em Hong Kong tentam se proteger contra o spray de pimenta que a polícia atirou neles”. Nos dois textos há uma caracterização quase inversa ao que ocorre de fato na imagem.

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O conteúdo do texto escrito, em oposição ao que é apresentado no texto visual, caracteriza a polícia como ativa, agindo sobre os manifestantes, realizando prisões e agredindo-os com o spray. É provável que muitos leitores olhem para essa fotografia e se deixem levar pelo conteúdo expresso pelo título e pela legenda, que está de acordo com os preconceitos que dominam o senso comum. Entretanto, a ambiguidade causada pela contradição entre texto e imagem pode levar o leitor a questionar a validade do conteúdo veiculado pelo texto escrito.

Se a intenção do site não for estimular essa percepção contrária, essa contradição, deveria ter escolhido outra imagem para ilustrar a matéria, de maneira que ela ratificasse o que foi dito pelo texto escrito. Um bom exemplo de uma imagem que confirma esse conteúdo escrito foi publicado no site da Fox News no dia 01 de outubro, realizada por Vincent Yu. Como é facilmente perceptível, essa fotografia explica melhor o que está sendo afirmado pelo conteúdo da matéria da Radio França, apenas com uma mudança de ângulo da câmera.

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André Melo Mendes
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e pesquisador do Gris/UFMG



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