Análise | Morte

Acontecimento e morte

O trem não pode parar

Adílio dos Santos, vendedor ambulante, atropelado e morto por um trem no Rio de Janeiro. Sua morte seria uma entre tantas outras pelos trilhos do Brasil, não fosse o fato de após morto, ser atropelado novamente e, desta vez, de modo intencional.

Estação ferroviária de Madureira, no Rio de Janeiro, foi ‘palco’ da trágica morte do vendedor de balas Adílio Cabral dos Santos

Estação ferroviária de Madureira, no Rio de Janeiro, foi ‘palco’ da trágica morte do vendedor de balas Adílio

Rio de Janeiro, tarde de terça feira, 28 de julho. Adílio Cabral dos Santos, 33 anos, vendedor de balas e doces é atropelado por um trem na Estação de Madureira. Como muitos vendedores ambulantes das estações ferroviárias cariocas, Adílio se arriscava e cruzava a linha dos trens tentando escapar da fiscalização e apreensão de suas mercadorias.

Seu corpo ainda estava sobre os trilhos, quando outro trem começou a se aproximar e foi autorizado pela SuperVia (empresa que gerencia o serviço) a prosseguir. O fato foi filmado por um passageiro e o “segundo atropelamento” de Adílio virou notícia, sendo veiculado pelos principais noticiários do país.

Apesar da morte em si se configurar como um acontecimento, digno de visibilidade não só por ter acontecido em uma movimentada estação ferroviária, como por seu caráter de tragédia familiar, o que mais chocou a população e se destacou na cobertura midiática deste caso é o segundo atropelamento de Adílio, este, intencional.

A SuperVia se responsabilizou pelo ato e assumiu ter autorizado a passagem do trem sobre o corpo. Segundo a concessionária, o trem tinha altura mais do que suficiente para não atingir a vítima. No entanto, o que mais causou indignação foi a insensibilidade da empresa ao alegar que, como o acidente aconteceu no horário de pico, a paralisação da linha criaria transtornos para toda a movimentação do horário e prejudicaria os passageiros.

O primeiro ponto que chama nossa atenção diante deste acontecimento é que ele revela um desrespeito pela morte e também pelo corpo. Constatada, mesmo que não oficialmente, a morte de Adílio, seu corpo perde valor e a empresa prioriza os passageiros, prioriza aqueles que estão vivos, que têm horário, que têm pressa e que também garantem a lucratividade da concessionária.

O “segundo atropelamento” mostra que Adílio é desconsiderado enquanto pessoa. Homem simples, negro, de baixo poder aquisitivo, um invasor – afinal, atravessava clandestinamente os trilhos do trem -, ele não é reconhecido em sua dignidade, como cidadão de direitos. A empresa também desconsidera sua família, seu sofrimento não só pela perda, mas também causado pela violação do corpo do ente querido. Como mostram as notícias relacionadas ao caso, a mãe e o irmão do vendedor só ficaram sabendo de sua morte pela tevê quando o nome de Adílio foi revelado.

Acreditamos que a morte de Adílio e, principalmente, seu “segundo atropelamento” evidencia nossa sociedade que corre cada vez mais contra o tempo. Nela parece cada vez menos possível parar diante do outro, do problema do outro. Onde é preciso seguir sempre adiante. A decisão da Supervia revela um desrespeito ao corpo, à morte, ao sofrimento e uma valorização do dinheiro, da pressa, da vida daquele que dá lucro em detrimento daquele que causa “prejuízo”.

No entanto, este acontecimento também mobilizou setores da sociedade, o Ministério Público, a Comissão de Direitos Humanos da OAB, a Secretaria Estadual de Transportes do Rio de Janeiro, entre outros. Ele nos convoca, nos afeta. Ao chocar, comover, indignar, ele nos coloca no lugar da família que perdeu um membro querido. Faz repensar sobre o valor da vida e da morte, do tempo. Faz reivindicar por justiça. Faz falar.

Fabíola Souza

Doutoranda do PPGCOM/UFMG e pesquisadora do Gris.

 

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