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Acontecimento e valores sociais

Os efeitos do incesto entre irmãos e as leis alemãs


No começo do mês de agosto fomos confrontados com um acontecimento digno de novela e que choca com nossas normas e padrões sociais. Um homem e uma mulher de São Paulo, com sete anos de casamento, descobrem que são filhos da mesma mãe, configurando assim um incesto. As consequências desse acontecimento são capazes de nos dizer muito sobre ele, e sua pouca exposição nos mostra que o assunto “incesto” ainda é tabu em nossa sociedade. Bem longe daqui, na Alemanha, o parlamento pode descriminalizar a relação entre filhos de mesmos pais.

A descoberta da relação entre os dois irmãos não poderia ter sido mais novelística. Na Rádio Globo paulista, durante o programa “Anjo dos Encontros”, uma mulher pede ajuda para encontrar a mãe que não via há 40 anos. Mãe e filha conversam, ao vivo, e a senhora revela ter tido também outro filho, de nome Leandro. As coincidências não param até que vem a certeza: o marido é seu irmão. O homem também havia sido abandonado quando era bebê e só conhecia seu pai. Sobrenomes iguais impediram que se casassem em um cartório, mas eles vivem como um casal há mais de sete anos. A relação não é reconhecida pela justiça por causa do laço familiar. Desse relacionamento nasceu uma criança saudável e que hoje já tem seis anos.

A autora Isabel Babo Lança (2005) nos diz que “as consequências dos acontecimentos são mais pertinentes para a sua caracterização do que suas causas”. Tomando o caso ‘incesto entre irmãos’, “são os efeitos, voluntários ou não, procurados ou imprevistos, que determinam o valor simbólico que lhe é atribuído”. O fato de eles permanecerem juntos, mesmo diante de uma descoberta tão chocante, é a consequência que descortina um novo futuro para nós. A primeira ideia, aquela aceita pela sociedade, seria o desmanche do casamento e a reclusão dos envolvidos para diminuir os danos ao máximo possível. Outro caminho possível deve ser ignorado pelas pessoas? Ou punido?

Muita gente pode não ter tido conhecimento desse caso. É tão diferente e rompe tão bem com a nossa realidade que podia se esperar um alcance maior. O incesto quebra tantos paradigmas sociais nossos e vai além dos problemas biológicos causados pelo relacionamento consanguíneo: é socialmente considerado vergonhoso, nojento, medonho. O desenrolar da história é talvez um pouco inesperado. Eles decidem manter o casamento, continuar criando a filha, mesmo com receio do que a cidade, os vizinhos e a igreja poderão dizer.

A identidade de ambos se mantinha preservada durante semanas e o acontecimento parecia perder forças. Até que em um domingo, três semanas após a conversa na rádio que revelou a relação entre irmãos, os dois envolvidos resolvem abrir sua casa e dar uma entrevista para o programa Domingo Legal (SBT). A filha pequena inclusive é mostrada. As escolhas de se mostrarem ao mundo e também de levarem a diante o casamento vão de encontro a outro acontecimento, afastado de nós, ocorrido na Alemanha.

O Conselho de ética alemão quer legalizar sexo entre pais e filhos e entre irmãos. A justificativa do parlamento é garantir a “autodeterminação social”. O que pode parecer espantoso e crime para países como o nosso, possui diferentes noções no mundo todo. As relações sexuais consentidas são permitidas entre quaisquer adultos na França, na Espanha, em Portugal, na Bélgica, em Luxemburgo e na Holanda.

Mesmo sendo um acontecimento que tomou pequenas proporções midiáticas, os efeitos do caso dos irmãos casados aparecem como um pano de fundo e uma oportunidade para entender sobre nossos tabus e falar sobre o tema incesto. Trata-se de um tema/problema que tem sido revelado e discutido em outros momentos e acontecimentos recentes, como já abordado aqui no GrisLab.

Referência citada:
BABO-LANÇA, Isabel. A constituição do sentido do acontecimento na experiência pública, Trajectos, 6, Lisboa: ISCTE, 2005, p. 85-94.

Eduarda Rodrigues
Voluntária de Iniciação Científica do Gris/ UFMG



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