Análise | Gênero e sexualidade

“Bela, recatada e do lar”: o feminino e o feminismo em pauta

A publicação do perfil “Bela, recatada e do lar” pela revista Veja, sobre Marcela Temer, esposa do presidente interino, abriu espaço para o questionamento dos lugares e representações da mulher na sociedade brasileira.

Marcela Temer ao lado do marido na posse de Dilma Rousseff e Michel Temer, em 2015. Fonte: O Globo

Marcela Temer ao lado do marido na posse de Dilma Rousseff e Michel Temer, em 2015. Fonte: O Globo

Bela, recatada e do lar. Foi assim que uma repórter da Veja descreveu Marcela Temer, esposa do presidente interino Michel Temer, em um perfil publicado pela revista no dia 18 de abril.

No texto, a repórter faz observações curiosas sobre a trajetória e o estilo de vida de Marcela e de sua família, composta pelo marido e seu filho de 7 anos, “Michelzinho”. Ali, ficamos sabendo dos detalhes do primeiro encontro de Marcela e Temer (que aconteceu quando ela tinha 19 anos e ele 62), de como ela prefere que um cabeleireiro famoso arrume seus cabelos, e que tipo de roupas ela gosta – “vestidos até os joelhos e cores claras”. Ressalta-se, também, que ela “chama a atenção pela beleza”, mas sempre foi “recatada”, conforme relata a irmã. Apesar de ser sobre ela, o perfil não tem sequer uma frase de Marcela sobre si mesma ou sua vida, mas traz um poema sensual escrito pelo marido e dedicado a ela. O parágrafo que encerra o texto diz: “Michel Temer é um homem de sorte”.

A publicação desse texto, cuja recepção teria sido morna e até positiva em tempos passados, se tornou um acontecimento midiático tão grande que repercutiu em vários grandes veículos nacionais e desencadeou um turbilhão de (re)ações críticas. Nas redes sociais, “Bela, recatada e do lar” virou uma hashtag, com milhares de mulheres postando fotos que brincavam e apontavam o peso misógino e machista do texto. Nos dias que se seguiram, este coro foi engrossado por diversas mulheres famosas – de deputadas federais a atrizes da Rede Globo -, dando visibilidade a falas e figuras que contribuem para o fortalecimento da luta pela equidade de direitos entre homens e mulheres.

Como sabemos, todo acontecimento tem seu poder de afetação, sobretudo quando levamos em conta o contexto que o abriga. No contexto contemporâneo, da chamada “Primavera das Mulheres”, em que o engajamento virtual em hashtags que chamam a atenção para comportamentos e discursos sexistas é poderoso e massivo, um texto que tenta resgatar e impor lugares e valores tradicionais – ainda vigentes e em processo de ressignificação – à mulher, como o recato, a subordinação, a beleza contemplativa e a servidão doméstica, só poderia ser combatido e problematizado em seu próprio desserviço por parcela significativa da sociedade. Sobretudo em um momento em que todas assistimos à ascensão e queda da primeira presidenta brasileira (cuja eleição legítima pode ser considerada um grande avanço na representatividade feminina na política) pelas mãos de um Congresso e um Senado formados majoritariamente por homens, que portam bandeiras conservadoras e vão, pouco a pouco, anulando conquistas de direitos básicos das mulheres, como por exemplo, o acesso livre à “pílula do dia seguinte”.

Muito se falou e se fez após a publicação de “Bela, recatada e do lar”: hashtags foram criadas, fotos viralizaram, feministas e famosas ganharam espaço de fala em veículos importantes; deputadas se insubordinaram e tomaram o assento do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha; a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa discutiu novamente a legalização do aborto; Dilma foi afastada da presidência e Marcela Temer virou, de fato, a primeira dama. Entretanto, pouco parece ter sido escutado até o momento: nos ministérios do governo Temer, pela primeira vez desde 1964, não há sequer uma mulher, e o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos foi extinto.  Com isso, vemos que, apesar de todo o barulho, o lugar da mulher ainda está em disputa para que seja onde ela quiser.

Mayra Bernardes
Bacharel em Comunicação Social pela UFMG
Pesquisadora do Gris

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de maio, definido em reunião do GrisLab.


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