Análise | Celebridades

Bruno fora da prisão e a naturalização da violência

A análise busca explorar o acontecimento da soltura de Bruno Fernandes, condenado a 22 anos de prisão por matar Eliza Samúdio. O ex-goleiro do Flamengo estava preso temporariamente, até os pedidos de recurso serem julgados, quando conseguiu um habeas corpus para aguardar em liberdade. É curioso notar, além das várias propostas de emprego em clubes de futebol, as manifestações de fãs de Bruno, que o aguardavam na saída da prisão para tirar selfies.
Foto: NELSON ANTOINE/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto: NELSON ANTOINE/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Eliza Samúdio desapareceu em 2010, logo após tentativas de cobrar de Bruno Fernandes que assumisse a paternidade do filho. Entre investigações e ampla cobertura midiática do acontecimento, Bruno Fernandes foi condenado pela justiça do Rio de Janeiro (pena cumprida durante este período em que esteve preso) e condenado por júri popular pela morte de Eliza em Minas Gerais. Bruno, devido a sua condição financeira, pode pagar por uma defesa composta por advogados experientes e incansáveis, realidade de uma parcela reduzida da população brasileira acusada de crimes, e foi solto por liminar aprovada pelo STF.

Alguns aspectos da soltura de Bruno movimentaram os meios de comunicação e as conversações informais: a presença de fãs do ex-goleiro que tiraram selfies, as manifestações de apoio a Bruno nas redes sociais (incluindo uma página no facebook) e as propostas de emprego por parte de alguns clubes de futebol.

A fama alcançada por ter sido atleta do Flamengo, time com uma das maiores torcidas brasileiras, é residual, se manteve durante esse tempo. Em que lugar se encaixa a popularidade de Bruno, entretanto, numa sociedade que apregoa “bandido bom é bandido morto” em várias situações? Que o país é violento[1], já sabemos. E que a espetacularização de crimes é pauta diária do jornalismo, também, nas manchetes dos jornais Super e Aqui, por exemplo. As selfies com Bruno fazem a discussão sobre limites da exposição nas redes sociais digitais voltarem, afinal, quem são os ídolos da atualidade? Mas elas também retomam a discussão sobre a violência de gênero. Crimes contra mulheres, seja a violência doméstica, o assédio ou o feminicídio são capazes de mobilizar negativamente a opinião pública da mesma forma que outros tipos de crimes? A prof. Maíra Zapater diz “o crime pelo que foi condenado não causa repulsa social na parcela da população que o aplaude, tira selfies e quer vê-lo em campo”[2].

Numa matéria do Fantástico sobre a contratação de Bruno, o diretor do Boa Esporte Clube, Roberto Moraes, ao ser perguntado “e se a vítima fosse sua filha”, disse “O meu pensamento é: e se o Bruno fosse o seu filho?”[3]

O problema repousa em “filhos” serem sistematicamente privilegiados em detrimento das “filhas”. Ao filho, emprego, selfies, apoio. À filha, restaram os xingamentos nas redes sociais e a “justificação” da violência sofrida por ela. O mais grave não é Bruno fora da prisão, mas a naturalização da violência (contra a mulher) que o mantêm no status de ídolo.

Laura Lima
Mestranda do PPGCOM-UFMG
Pesquisadora do GRIS



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