Análise | Celebridades e Figuras Públicas

Casamento real: representatividade em cena

Foto de Alexi Lubomirski

Jamais fomos modernos, diz Bruno Latour. É fácil perceber isso após o final de semana do casamento real, que aconteceu em Windsor e despertou discussões em torno de representatividade, questões de gênero e da própria monarquia. O casamento entre o príncipe Harry, caçula da princesa Diana e do príncipe Charles, e a atriz Meghan Markle, mais conhecida por seu papel na série Suits, foi transmitido para grande parte do mundo no dia 19, e falado à exaustão durante o fim de semana. A monarquia britânica, dentre as monarquias ativas, é uma das que possui maior apoio popular. Em pesquisa recente da Ipsos, a rainha é o membro da família real favorito em 11 (incluindo o Brasil) de 28 países pesquisados. Ela empata com o príncipe Harry na percepção geral, mas ele ganha disparado se observarmos apenas a Grã-Bretanha.  

Se hoje tem função quase decorativa, por muito tempo essa monarquia foi a responsável pela expansão do Império em várias regiões da África e da Ásia (África do Sul e Índia são dois exemplos dos vários países colonizados), até hoje sem se retratar ou se responsabilizar pelos abusos cometidos anteriormente. A tendência a priorizar os aspectos positivos do imperialismo britânico não fica restrita à Europa, mas chega ao Brasil. Segundo a mesma pesquisa da Ipsos, a família real impacta positivamente na imagem do Reino Unido para os brasileiros que responderam.

Algumas críticas ao casamento envolveram essa percepção da monarquia como instituição ultrapassada e digna de repúdio, e isso acabou chegando à noiva, Meghan Markle, atriz, californiana, divorciada, biracial e feminista. Seria injusto depositar em uma pessoa toda a esperança de modernização da família real, mas alguns elementos do casamento, muitos que faziam eco às origens da noiva, foram celebrados.

Meghan é divorciada e estrangeira, duas características que há pouco tempo a impediriam de se casar com Harry. Ela se autointitula biracial (sua mãe é negra, e seu pai é branco), já denunciou o racismo em Hollywood algumas vezes e é  ativista, discursando na ONU pela igualdade de gênero e se envolvendo em temáticas como o estigma da menstruação.

No casamento, a presença do reverendo Michael Curry (negro, favorável ao casamento gay e crítico de Donald Trump) foi requerida por Meghan. Curry fez um sermão sobre o poder do amor, sem deixar de mencionar o passado de escravidão e Martin Luther King. O coral gospel regido por Karen Gibson e o violoncelista Sheku Kanneh-Mason, de 19 anos, também foram exemplos de inclusão.

Talvez a maior transformação do casamento tenha sido  a própria noiva. Quando batemos incessantemente na tecla da representatividade, é importante lembrar da interseccionalidade. Se, para mulheres brancas, a figura  de “princesas” parece ultrapassada, para mulheres não-brancas, ele é negado desde a infância. A falta de representatividade midiática é só uma das facetas do racismo estrutural que se projeta com tamanha força na vida de mulheres negras: mais da metade delas, em 2010, não vivia em união, independentemente do estado civil (dados do último Censo), o que o movimento  feminista chama de “solidão da mulher negra”.

O que faz da monarquia um símbolo da tradição é a sua impermeabilidade a mudanças e a lentidão em incorporar discursos e práticas menos arcaicos. A presença de Meghan pode parecer não alterar nada, mas é um símbolo potente num tempo em que mudanças acontecem “a passos de formiga e sem vontade”.

Laura Lima
Mestra em Comunicação Social pela UFMG e pesquisadora do Gris



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